Baião de dois


Foto: Dirceu Garcia/Comércio da Franca

Veja com que facilidade se faz este prato único, adaptável livremente à oferta de ingredientes em nossa região

Sônia Machiavelli

Editora

“ Antes dormir com fome do que acordar com dívidas” – Cora Coralina (1889-1985)

“Rosita, hoje vou preparar um banquete para os meus pais, meus irmãos, minha filha e meus maridos, hoje eu vou pro Ceará. Mas nesta viagem você não me acompanha, vou só. Já conversei lá nos Altos, tá tudo acertado, vou morrer e vou direto para o Céu’. Eu disse baixinho no ouvido dela: ‘quem disse que herege vai pro Céu?’ Ela me respondeu: ‘você é quem pensa, já acertei tudo, viu?’ E Rachelzinha morreu pouco depois. Como um anjo. Tinha 92 anos”

A “herege”do parágrafo anterior, retirado de entrevista publicada em 2007 pela revista Vida e Arte, é a nossa ficcionista, cronista, jornalista, primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras: Rachel de Queiroz (1910-2003). Sua última interlocutora, na hora derradeira, foi a bióloga e professora Rosita Ferreira de Souza. Grande amiga e secretária, era neta de Francisca Ferreira da Silva, a Madinha, uma das personagens do livro O Não me deixes-suas histórias e sua cozinha, de Rachel, lançado em 2000. No título, a referência se faz ao nome da fazenda localizada no município de Quixadá, herança familiar e lugar de eleição de Rachel. Ali ela escreveu todos os capítulos de Memorial de Maria Moura, romance transformado em minissérie pela Globo. Ali ela elaborava os pratos de que gostava e sintetizavam, segundo suas palavras, “o espírito agreste do homem do sertão”: arroz, feijão, carne de carneiro, buchada de bode, carne seca, paçoca, sarrabulho, mungunzá, galinha de cabidela, frigideira de siri.

… Ali fundou uma visão de mundo enquanto exercitava a literatura e desenvolvia paixão pela culinária. Ou será que exercitava a culinária e desenvolvia paixão pela literatura?

O Não me deixes é livro para maravilhar quem gosta de culinária e literatura, sendo notória nele a coerência da escritora, que leva dos pratos para a ficção e da ficção para os pratos uma aguda consciência do que é básico. As páginas de seus romances e crônicas, como seus pratos saídos da cozinha de fogão a lenha, são metáforas da vida no sertão. Substantivas, sem adereços, raros adjetivos, nenhum molho. Só a essência do possível num espaço onde a existência é luta diária para se firmar no ambiente inóspito, entre rude e hostil na maioria do tempo. Mas com direito a surpresas trazidas pelas chuvas de inverno. Jitiranas roxas, bromélias verdíssimas, cactos tortuosos com suas bolotas rubras. Cajus para a doce e refrescante cajuína, macaxeira para a farinha imprescindível, milho para os bolos do São João, cana para a rapadura. E feijão de corda para o baião de dois, prato que é expressão máxima dessa cozinha em que Rachel se alternava com suas cozinheiras Antônia e Nise, mais a citada Madinha, vinda de outros tempos mas dos mesmos lugares, e a irmã Maria Luiza, dezesseis anos mais nova.

Se a cozinha baiana fora obra de escravos, a cearense derivava do legado de índios e caboclos, sugere Rachel. Por isso, em razão desta tosca herança tapuia, combinada a algumas receitas portuguesas severas, e marcada pela escassez de recursos nas secas inclementes, impôs-se desde cedo caráter de frugalidade quase radical, certo desprezo pela guarnição, explícita ojeriza por misturas arriscadas que desfigurassem a pureza de sabores e odores. O método que consiste em eleger o fundamental e excluir o floreio, exemplar da culinária cearense e da literatura nordestina, transparece no cardápio sertanejo e na prosa de Rachel de Queiroz . Nas linhas finais do livro, a escritora reafirma este propósito de simplicidade: “Há um prazer áspero na permanente descoberta de quanto de supérfluo a gente se sobrecarrega e de como é fácil a gente se despojar dele. É como tirar uma casca suja. Ou uma pele velha, seca, engelhada.”

Agora, veja com que facilidade se faz este prato único, adaptável livremente à oferta de ingredientes em nossa região. Bom para comer pensando no pedaço do Brasil que precisa ser compreendido além das praias turísticas.

Clique na imagem para ampliar:

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s