Salada Med


Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca

Povos mediterrâneos souberam combinar alimentos oriundos da América, como tomates, com aqueles já consumidos há séculos na Europa, como o trigo

Sônia Machiavelli

Editora

Med, de Mediterrâneo, para situar. Também de mediterrânea, para descrever a dieta que os especialistas recomendam e definem como a mais saudável do mundo. A salada leva trigo, que aparece na forma de macarrão. Azeitonas e azeite, lembrança de oliveiras. Limão, com suas moléculas perfumadas. A pimenta-do-reino instigadora. O atum de cor rosada que, mesmo enlatado, não perde sabor específico. Vagem, legume que viajou ao redor do mundo a partir da descoberta da América e hoje é apreciado nos quatro continentes. E tomate, essa fruta sensual que os espanhóis encontraram no México, levaram para Sevilha, e os italianos só descobriram um século depois. Consumida no mundo todo, desfez o mito dos seus primórdios na Europa, quando era considerada planta venenosa.

Vagem e tomate integram o rol de alimentos que a colonização europeia, a partir do século XVI, espalhou pelo planeta. Essa miríade de plantas do continente americano, que incluiu também abóbora, amendoim, batata, milho, mandioca e páprica, entre outras, fazia parte do cardápio dos povos aqui estabelecidos e tem sua idade contada em milênios. Ao longo dos últimos anos, um número cada vez maior de evidências científicas aponta para origens muito antigas da agricultura nas Américas. A revista Science publicou em 2009 um texto de Tom Dil-lehay, da Universidade Vanderbilt, comprovando que assentamentos agrícolas onde eram cultivados legumes já estavam a todo vapor nos Andes peruanos há pelo menos 10 mil anos.

Devido ao clima e às qualidades do solo, as terras banhadas pelo Mar Mediterrâneo acolheram muito bem as plantas americanas levadas pelos desbravadores de mares que fizeram do século XVI tempo de grande avanço para a humanidade. Os europeus ali fixados, já com know how sofisticado em assuntos culinários, aprenderam a introduzir nos seus pratos esses novos alimentos. Obtiveram resultados deliciosos misturando-os com os que já cultivavam em seu solo, como citrinos, azeitonas e uvas, frutas típicas da região; e com as ervas aromáticas, como salsa, hortelã e manjericão. Tudo isso sem falar do trigo milenar. Espanhóis, italianos e franceses do sul acolheram o diferente e o agregaram ao seu menu tradicional, ganhando nas combinações sabores cada vez mais reverenciados.

A respeito desse assunto, um livro curioso foi lançado com sucesso na França, em setembro passado. Assinado pela professora francesa Éveline Bloch-Dano, e chancelado pela Universidade do Gosto, chama-se A Fabulosa História dos Legumes. Com tradução de Luciano Vieira Machado, chegou ao Brasil em dezembro pela Editora Estação Liberdade. Tem prefácio de um filósofo, Michel Onfray, vejam só que importante. Diz este que “o legume mais modesto contém em si a aventura do mundo”, antecipando comentário da autora já nas primeiras páginas: “ os legumes (…) constituem o grau elementar da organização social, a passagem do cru ao cozido, da natureza à cultura: os seres humanos domesticaram os legumes como domesticaram os animais”. No corpo da obra há poemas, trechos literários, reproduções de pinturas, citações às vezes hilárias, como a de Proust, que achava as couves estúpidas, em oposição a Catão, que acreditava que elas curavam tudo, até melancolia. Oferece ainda receitas como a que ilustra esta página e à qual quase chamei Arcimboldo. É o nome daquele artista milanês renascentista que ganhou notoriedade com suas pinturas antropomórficas da série As Estações, onde o rosto é composto por vegetais. Exerceu grande influência sobre Salvador Dali. Mas aí o bonde é outro, totalmente surreal.

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