Pappardelle com castanha


Foto: Dirceu Garcia/Comércio da Franca

Pela combinação de ingredientes, massa e castanha-do-Pará, podemos definir este prato como ítalo-brasileiro

 Sonia Machiavelli

Editora

“O apressado come cru  e quente” – Ditado popular 

Faz tempo que procurava pappardelle, escapando dos que me ofereciam tagliatelle. O primeiro se exibe no mínimo em três centímetros de largura, o dobro do segundo. Mas é sempre menor que a tira de lasanha. Sua origem está na Toscana e seu nome deriva de papare, sinônimo menos clássico de mangiare. Geralmente acompanha carnes e é servido com pouco molho. Tinha pesquisado em mercearias e delikatessens. Até pelos Santa Maria e Santa Luzia, os chiques e tradicionais paulistanos, andei inutilmente. Ainda bem, pensava, que alguns restaurantes italianos continuavam oferecendo a iguaria no cardápio. Como a Cantina Roma, em São Paulo, que faz um maravilhoso pappardelle com ragu de coelho. No caso, a massa é produzida pelo chef da casa.

Então, já estava desistindo. Pois se na cidade que concentra a maior colônia italiana no mundo, depois de Nova York, eu não tinha obtido sucesso, havia bem poucas possibilidades em outro lugar. Mas há um mês estive em Belo Horizonte, e foi lá, no seu imenso, rico, perfumado e colorido mercado central que encontrei a massa entre spaghetti, fettuccine, farfalle, bavette , penne, lasagne, gnocchi, oricchiette… E, curiosamente, como costuma acontecer algumas vezes, não fui eu a encontrar o que quase tinha desistido de procurar. Foi o pappardelle quem me achou, no corredor onde os boxes de aguardente disputam espaços com doces, queijos e pimentas, produtos tradicionais de Minas, que tem centenas de alambiques destilando pinga o tempo todo. Uma fantástica história a gente conhece ali, atendida por vendedores que tudo entendem de cachaça, alguns deles recém-saídos da faculdade onde cursaram engenharia de alimentos. E foi enquanto escolhia cachaças para uns amigos, conversando com expert no assunto, que meu olhar
foi atraído pela banca da frente, que exibia no balcão um número enorme de queijos , de todo tamanho e cura. Acima deles, dependurados num fio, pacotes de massa pareciam me acenar. Foi quando o pappardelle me chamou. Nossa, tinha encontrado. Era de produção local, artesanal, bem pequena: “…mineiro prefere tutu”, me explicou o rapaz.

Comprei os dois pacotes que estavam à venda e os trouxe para casa. Num desses últimos domingos resolvi preparar. Lembrava-me de receita antiga, com molho à base de castanha-do-Pará. Resgatei-a entre folhas soltas de engordurado caderno e fui para a cozinha. Há muito tempo não fazia este molho. O sabor da castanha misturado ao da manteiga, e com um traço leve de noz-moscada, o tornam delicioso, especial. Talvez você esteja se perguntando de que adianta mostrar uma massa que será difícil de encontrar por aqui. Eu respondo que fiz a opção porque considerei o molho tão bom que o experimentei com outros tipos de massa. Cheguei à conclusão de que ele casa bem com todas, é um prodígio em termos de combinação e praticidade no preparo. Tome nota: enquanto o macarrão cozinha, coloque os ingredientes no liquidificador e bata por um minuto. Despeje numa frigideira sobre fogo baixo e deixe engrossar. Teste o sal. Depois é só colocar sobre a massa escorrida e ainda bem quente. Arremate com os tomatinhos refogados no azeite.

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