Bolinhos de chuva


Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca 

Sônia Machiavelli

Editora  

“A esperança é ótimo almoço mas péssimo jantar” – Francis Bacon (1561-1626) filósofo, pensador, ensaísta inglês

São fáceis de preparar, não se complicam em segredos, alegram a família inteira, mas requerem um ingrediente que nem sempre temos à mão: a chuva. Estes bolinhos fritos, redondos e adocicados, só têm graça com água caindo do céu e tamborilando em telhados e janelas. Se possível, com termômetros em queda, como se mostrou o clima em nossa região na semana passada.

Não há registro oficial que nos remeta à autoria do nome da guloseima. Presume-se que tenha sido alguma mãe, avó ou tia quem o tenha assim batizado, depois de conter crianças falantes e inquietas em casa por causa de algum aguaceiro. Em essência já existiam entre nós desde o final do século XVIII, trazidos pelos portugueses que os levaram também às colônias africanas, onde são até hoje consumidos. A farinha de trigo, chamada farinha do reino, era então cara e rara, motivo pelo qual a criatividade levava os cozinheiros à sua substituição pela mandioca, pelo inhame ou cará. Óleo vegetal não existia, eles eram fritos em gordura animal, de porco. De resto, os mesmos ovos, açúcar e leite. A canela em pó, por muito tempo especiaria acessível a poucos, só seria integrada à receita popular no final do século XIX.

Os bolinhos tinham outros nomes em terras lusitanas: quero-quero, quero-mais, desmamados, palavras com gostinho de vocabulário de criança. Com sotaque português, já no Brasil, foram chamados filhós-de-carnaval, pois era tradição servi-los durante a festa de rua. O nome vira-cambota, que resulta de alguns deles se virarem sozinhos na fritura, de um lado a outro, é bem antigo. E porque muitas escravas se tornaram conhecidas pós-abolição pelos quitutes que preparavam e vendiam nas ruas, os bolinhos foram revelando a autoria. Os bolinhos da negra Ambrósia e da negra Marcionília eram disputados no centro do Rio e ficaram documentados até em telas de pintores europeus aqui chegados em missão cultural .

No século XX uma afrodescendente se imortalizaria nas páginas de ficção de Monteiro Lobato. Quem leu os livros ou assistiu às séries televisivas produzidas pela Rede Globo, jamais se esqueceu de Tia Nastácia e suas habilidades para produzir deliciosos bolinhos que deleitavam Narizinho, Pedrinho, Emília e toda aquela extraordinária população do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Em torno dos bolinhos se reuniam criaturas curiosas e argutas para ouvir Dona Benta contar histórias que fundariam mundos nas almas de milhares de leitores.

Quer a receita? Em geral, a proporção dos ingredientes é de três xícaras de farinha para uma de leite e dois ovos. O açúcar fica ao gosto de quem prepara. O fermento de tipo químico é o último ingrediente a entrar na massa. Como faziam nos tempos em que este ainda não existia? Usavam coalhada, que permite o crescimento natural da massa. Depois, passaram a empregar bicabornato de sódio, prática que perdura em algumas regiões do interior. Os bolinhos de chuva apresentam consistência e sabor similar aos dos sonhos, de quem são parentes próximos. Mas sonhos pedem fermento biológico, tempo para crescer e sofisticados recheios.

O ponto da massa e os graus da gordura são determinantes para obter massa de textura leve e superfície crocante. Se a massa ficar muito mole, o bolinho pode encharcar. Então, o ponto deve ficar mais duro. Unto duas colheres com óleo e dou forma aos bolinhos, que não podem ser muito grandes para que fritem dentro. O óleo deve ser bem aquecido antes, mas a chama precisa ser diminuída durante a fritura. Depois de fritos, ficam dourados. Devem ser colocados sobre papel toalha para absorver excessos de gordura. Em seguida são passados em açúcar refinado e canela em pó. Com café feito na hora é passaporte para o paraíso nem sempre perdido da infância.

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