Para pôr no pão


foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca

Sonia Machiavelli
Editora
‘A culinária é uma linguagem por meio da qual posso comunicar minhas emoções e meu amor pela vida e pela natureza.’ – Hisayuki Takeushi (1965) chef japonês radicado em Paris

 

Não sei se é blefe ou meia verdade a história de Lord Sandwich, o jogador inveterado que, para não perder tempo e manter a rodada em andamento, pediu a um empregado que lhe trouxesse à mesa de carteado alguma coisa para comer que não exigisse talheres. O serviçal pressionado foi à cozinha do exclusivíssimo clube londrino, que só admitia 25 sócios, um deles o Príncipe de Gales, e relanceou o olhar. Viu pedaços de carne assada e filões de pão guardados para ceia a ser servida mais tarde: o que providenciar rapidamente com tais elementos para homem nobre e de hábitos refinados?

Fiat lux! (Pois não é que ela costuma aparecer no maior dos apuros?) Veio-lhe um insight. O homem passou a faca pelo pão, cortando-o pelo comprimento, colocou dentro nacos de carne, e se a gente quiser florear dirá que juntou uns pedaços de legumes reservados às saladas. Naquele instante criou a semente do que seria a comida -símbolo do novo século que estava por chegar: o sanduíche, comida rápida para alimentar pessoas apressadas, instadas pela agilidade das máquinas que fariam a revolução industrial. Aquelas, que não mais teriam tempo para se sentar em hora de almoço ou jantar, comiam de pé o pão com coisas diversas, não mais só carne, também ovos e presunto e miúdos e tudo o que ficasse bom.

Se non è vero è bene trovato, dizem os italianos. Porque faz sentido, uma vez que olhar para jogadores em ação é desvelar os visgos imateriais que os mantêm atados aos seus parceiros e às cartas, incógnitas a desafiar todos os que se arriscam. Uns mais, ou-tros menos, todos têm dificuldades para sair daquele círculo onde se digladiam sorte e azar. E é bonito pensar, linguisticamente, que houve aí um fenômeno que levou o nome próprio, Sandwich, a se transformar em substantivo comum, sanduíche, como aconteceu com gilete e guilhotina na língua francesa.

A especialidade inglesa virou epidemia e grassou pelo mundo: não há povo que não a tenha em seu cardápio. Só os britânicos devoram mais de 11 bilhões de unidades a cada ano e, segundo dados da Associação Britânica do Sanduíche, 75% deles são preparados em casa.

Voltando ao princípio, penso que deveria ser o empregado, e não o patrão, a dar nome à comida. Acontece que este era homem importante e, nesses casos, isso acaba contando. Não que fosse pouco criativo, a se avaliar sua rica biografia. John Montagu (1718-1792), o tal lorde cujo título de nobreza estava atrelado a uma cidade marítima situada no leste do Reino Unido, formou-se em Cambridge, viajou muito, pertenceu ao Almirantado da Marinha Real Britânica, ocupou cargo de secretário de Estado. E manteve sob seus serviços o célebre capitão James Cook, que batizou com o nome do patrão um arquipélago, o Havaí, descoberto em 1778 no Oceano Pacífico. Chamou-o Ilhas Sandwich. Ali Cook, que ironia, virou comida de nativos, depois de ter excursionado por vasta região, alcançando até a Ilha de Páscoa.

A proposta de hoje é para rechear um pão e o transformar em sanduíche. Receita prática, rende muito e costuma agradar paladares exigentes. Pode ser guardada na geladeira por até três dias, sem prejuízo de sabor. Aliás, parece ficar cada vez melhor depois de algum tempo de curtimento no molho.

Comece limpando o lagarto. Frite-o depois em óleo e vire os lados para que sele por inteiro. Salgue e cozinhe por meia hora na pressão. Desligue, espere esfriar, deixe na geladeira por uma hora, no mínimo. Enquanto isso, faça o molho. Refogue no azeite alho e cebola; junte pimentões e tomates, mais as azeitonas. Acrescente o tablete de caldo de carne, a xícara de vinagre, o sal a gosto e a salsinha. Deixe refo-gar por dez minutos. Retire o lagarto da geladeira e usando faca afiada corte fatias finas. Alterne numa travessa camadas de carne e molho. Use como recheio para qualquer tipo de pão salgado.

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