Pudim de café


Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca

Sônia Machiavelli

Editora

Conversar com Lucileida Mara de Castro, escritora, professora, diretora da Ave Palavra, ficcionista que enriquece o caderno Nossas Letras com seus textos que sabem as entranhas, ascendências e coisas telúricas, é constatar como as pessoas brilham quando falam de suas paixões. No caso da Lu, pelo menos três: literatura, educação e… cafeicultura.

A Lu sabe tudo a respeito de cafés e diante de seu léxico específico sobre essa planta natural da Etiópia, e chegada ao nosso país via Guianas, associada ao nome de Madame Palheta, fico sempre muito consciente da minha ignorância. Por exemplo, eu não sabia que a palavra barista, que designa o profissional conhecedor da arte de preparar corretamente espressos e cappuccinos, deriva de bar, unidade de medida de pressão utilizada na maioria das máquinas que produzem essas bebidas, e não de bar, estabelecimento comercial. Ignorava também completamente que a expressão “bebida mole” diz respeito ao café que apresenta aroma e sabor agradáveis, brandos e adocicados, ao contrário de “bebida dura”, que é aquela que se mostra acre, adstringente e áspera. Bebida riada? A de sabor mais leve. Rio zona? É a muito ruim, quase intragável.

Seguindo a ordem alfabética, broca é praga que ataca o fruto originando defeitos nos grãos; cereja é o fruto maduro, vermelho ou amarelo; derriça é operação de retirada dos frutos dos ramos, todos de uma vez; extração é passagem da água quente pelo café moído; grão ardido, o de coloração em diversos tons de marrom; rejeito, grãos bons misturados a defeituosos; redondo, café cujas características fundamentais se encontram em seu justo grau sem que nenhuma seja especialmente predominante. Ela vai falando assim, com alegria, pontuando didaticamente, esclarecendo. Agora, o que eleva o tom de sua voz , e traz um timbre mais cristalino à fala, é a referência à dupla de adjetivos — especiais e sustentável. O primeiro define os cafés de alta qualidade que cumprem uma série de requisitos para serem classificados como tal. Ou seja, são os pontuados de acordo com escala da Associação Americana de Cafés Especiais, que é bastante exigente. E sustentável é o processo monitorado por entidade independente que avalia produção, relações trabalhistas e políticas ambientais. Resumo da ópera: nenhuma lembrança daquela exploração que fez Portinari levar para suas telas, como um protesto, homens, mulheres e crianças que sucumbiam esgotados nas lavouras da região de Brodowski.

Lucileida é uma entusiasta dos cafés especiais produzidos na Alta Mogiana, que tem solo e clima muito propícios à cultura. E com especial carinho se refere à Labareda Agropecuária, onde desenvolve alguns projetos em parceria com a diretora Flávia Lancha Oliveira, que exporta grãos para Europa, Japão, EUA, Austrália e Nova Zelândia. Aliás, contam-me, as exportações brasileiras alcançaram no último ano a marca de 33 milhões de sacas; e as perspectivas para o mercado seguem muito boas.

Depois de toda essa conversa interessante, ganhei um pacote de café especial e um livro com mais de 50 receitas onde ele se faz presente. Escolhi para mostrar hoje um pudim de fácil execução, econômico, superleve e muito gostoso. Se quiser experimentar, comece fervendo meia xícara de café moído em três xícaras de leite. Assim que levantar fervura, desligue a chama, tampe e deixe em repouso por meia hora. Então coe, usando coador de pano ou filtro de papel. Bata os ovos com o açúcar por três minutos. Vá juntando aos poucos a mistura de café e leite, batendo por mais três. Por fim, agregue o licor e misture bem. Unte forminhas refratárias com manteiga ou azeite, encha e leve ao forno em banho-maria, por meia hora ou até que estejam bem firmes. Deixe na geladeira por quatro horas, no mínimo. Desenforme e cubra com calda de ameixa e vinho. Decore a gosto. Usei uma fatia de minimexerica. Essas frutas apareceram recentemente nos varejões e são muito doces e delicadas, além de exibirem calorosa cor de vida.

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