Em torno da abóbora


Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca

Sonia Machiavelli

Editora

É péssimo cozinheiro o que não pode lamber os próprios dedos’.Shakespeare (1564-1616), maior escritor em língua inglesa e mais influente dramaturgo do mundo

No meu trabalho como editora do caderno infantil Clubinho, leio todos os livros que me caem nas mãos e são mandados pelos autores que atendem ao público de faixa etária que vai dos 7 aos 11 anos. O último deles me chamou a atenção tanto pela plasticidade do título, Um quadro na parede e doce de abóbora no tacho, quanto pela linguagem da ficcionista, Rosana Rios, que une o lírico e o lúdico numa narrativa encantadora, capaz de comover também a criança que sobrevive em cada adulto. O livro conta a história de Lia e Léa, duas meninas que num dia chuvoso e frio brincam de faz de conta no sótão da casa dos bisavós. Descobrem um misterioso quadro mágico com árvores e nuvens que se movimentam. Entretidas com sua diversão, só percebem algo estranho algum tempo depois: sem explicação plausível, ambas passam a fazer parte da paisagem pintada no quadro, conhecem seu autor e aprendem, com criatividade, a sair de uma grande enrascada. No final, o leitor encontra a origem do doce de abóbora e uma receita desta delícia nacional, na lista das sobremesas mais expressivas da culinária brasileira, e cujo principal ingrediente tem um pé na milenar cultura ibérica e outro nas selvas brasileiras. Explica-se.

Abóbora é das poucas palavras ibéricas reconhecidas pelos filólogos entre as que já existiam antes das invasões romanas. Houve pequena evolução ao longo dos séculos, pois seu registro mais remoto é apopores, provavelmente celta, de acordo com o falecido linguista Celso Cunha, que foi marido da Lya Luft. Isso significa que o fruto já existia na Europa quando espanhóis e portugueses chegaram às Américas, embora seja ensinado na escola que foi um produto levado daqui para lá. Que por aqui já era muito conhecido, nos dá prova o termo quibebe, que uns dizem herança africana e outros pertencente ao léxico tupi. Num caso e outro, nos primeiros tempos da Terra Brasilis a abóbora cozida e amassada era prato de substância, apreciada pelo sabor adocicado e facilidade de cozimento. Por analogia, o sinônimo do substantivo abóbora no nordeste nasce da palavra tupi yereme, usada para nomear os brotos da aboboreira. De jereme para jerimum foi só um pulinho.

Depois de ler o livrinho me deu vontade de fazer o doce, até porque havia prometido a uma leitora pesquisar a receita que me pedia, “de um doce de abóbora amassado mas cortado em pedaços, como se fosse uma abobrada”. Achei graça na expressão dela, obviamente criada a partir de goiabada e marmelada, pois se goiaba dá goiabada, se marmelo dá marmelada, abóbora na sua versão cabocla abobra tem de dar abobrada! Até parece conversa da boneca Emília. Veio-me à mente um doce que comi há muito tempo na Casa Santa Luzia, em São Paulo. Fiada pela memória, tentei reproduzi-lo. Ficou gostoso, bonito, de se pegar com a mão e levar rapidinho à boca, como fazem as crianças. São poucos ingredientes, mas o coco ralado tem de ser natural, não deve sair do pacote.

Fiz assim. Descasquei e cortei em cubos dois quilos de abóbora de pescoço, que é como chamam em nossa região essa de cor linda e tamanhos variados. Cozinhei em pouquíssima água e deixei secar. Passei para um prato e esmaguei. Medi o açúcar, na mesma quantidade da abóbora. Ralei coco, passando-o pela parte mais grossa do ralo. Até aí seria a receita básica, bastando misturar tudo, inclusive os cravos-da-índia, e levar ao fogo até dar ponto de colher. Mas para cortar, como se deveria proceder, se a abóbora não tem a pectina que entra na composição de todos os doces do tipo e das geleias? Pensei se gelatina funcionaria bem. Ousei acrescentar um pacote da branca sem sabor, no final do processo. Não é que deu certo? Na foto o leitor pode conferir a beleza do branco do coco e do negro do cravo entremeados ao alaranjado maravilhoso da abóbora, tudo transformado em ricos pedacinhos. Está aí, Neide Augusta Pereira. Esta é para você.

 

 

 

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