Bolo de café


Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca

Sonia Machiaveli

Editora

‘‘Orgulhar-se de nunca ter fritado um ovo, na minha opinião, é um pouco triste. Comer é a base da vida. E cozinhar traz muitos benefícios..” – Rita Lobo, culinarista – autora do livro Panelinha, receitas que funcionam.

“Tengo tu mismo color/ Y tu misma procedência/Somos aroma y esencia/ Y amargo es nuestro sabor./ Tú viajaste a Nueva York/ Com visa em Bab-el-Mandeb/ Yo mi Trópico crucé/ De Abisínia a las Antillas./ Soy como ustedes semillas/ Son um grano de café.// En los tiempos coloniales/ Tú me viste em la espesura/ Com mi llana a la cintura/ Y mis arbóreos timbales/ Compañero de mis males/ Yo mismo me transplanté./Surgiste y yo progresé:/ En los mejores hoteles/ Te dijeron: qué bien hueles!/ Y yo asenti: “iuí, mesié!”

Os versos pertencem às duas primeiras estrofes de longo poema com o qual Nicomedes Santa Cruz Gamarra (1925-1992) homenageou Hugo Tomas Marthineitz (1924-2010) comparando a saga de suas vidas à do café. Foram comunicadores latinoamercianos da mesma geração, nascidos no mesmo país, com ascendência africana, que enfrentaram desafios semelhantes reagindo de formas diferentes.

Nicomedes foi poeta por vocação, folclorista por tradição, jornalista por profissão e, desde o final da década de 50 até sua morte, apresentador de programas de rádio e televisão em seu país, o Peru. Marthineitz, conterrâneo limenho, construiu uma carreira importante na Argentina também como locutor de rádio e apresentador de televisão que se fez admirado por sua voz grave, pelo uso que sabia fazer do silêncio e pela criação de programas até hoje lembrados pelos argentinos. Como as entrevistas com celebridades e políticos, onde surpreendia com perguntas fora do script, e às vezes de caráter íntimo, quando isso ainda era tabu. Apesar da fama e do respeito, morreu em estado de miserabilidade há dois anos.

No poema acima referido, a associação entre café e pessoa se faz pelo fato de serem os dois artistas de origem africana. O negro do café e da etnia serviu de assunto ao desenvolvimento do tema da escravidão e da dívida que tinham os colonizadores para com aqueles que deram o máximo de si ao país no qual haviam sido “transplantados”, como a coffea arábica e outras espécies oriundas das Áfricas- ocidental, oriental, tropical.

Em língua portuguesa alguns de nossos artistas também se detiveram sobre a importância econômica e social do café no Brasil. Um deles, o pintor Cândido Portinari, poeta bissexto, que além de tematizar os cafezais em suas telas, assim se manifestou em versos autobiográficos: “Num pé de café nasci/ O trenzinho passava/ Por entre a plantação. Deu a hora/ Exata. Neste tempo os velhos/ Imigrantes impressionavam os recém-chegados.”

Sim, além dos escravos, os imigrantes foram decisivos no cultivo de milhões de cafeeiros que sustentaram por mais de um século a nossa economia. E a paixão pelo produto, que começou a ser cultivado em meados do século XVIII, explica o consumo de 4,88 quilos de café torrado por pessoa ou seja, um pouquinho mais de 82 litros ao ano. Os dados são de 2011 e divulgados pela ABIC, que vem patrocinando a edição de alguns livros onde o café comparece como ingrediente de muitos pratos. Num deles pincei este bolo de café, que lembra os de final de ano, com suas castanhas e frutas secas. Muito bom e bem simples de fazer.

Numa tigela grande misture farinha, fermento, açúcar. Peneire duas vezes. Corte a ameixa seca em pedacinhos e pique grosseiramente as nozes. Acrescente à mistura de farinha e mexa bem. Bata os ovos, gemas e claras numa tigela e junte o café forte e frio, continuando a bater. Coloque a manteiga derretida e o licor de café. Derrame o líquido sobre os secos e mexa até que a massa fique lisa e todos os ingredientes estejam bem integrados. Unte com manteiga ou azeite uma forma de bolo inglês pequena, tipo 24cmx10cm. Polvilhe farinha. Despeje a massa e leve a assar por uns 40 minutos. Teste com o palito para ver se o interior está seco. Retire do forno, desenforme morno, cubra com o açúcar de confeiteiro.

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