Moqueca de siri


Moqueca de siri (Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca)

Sonia Machiavelli
Editora

“No tabuleiro da baiana tem vatapá/Caruru/Mungunzá/Tem umbu/Pra ioiô…”
Ary Barroso (1903-1964)

Vixe! Acabou-se, meu camarada. Coronel Ramiro bateu a caçuleta e pôs ponto final na minissérie. Não mais Jesuínos, Melks, Manuel-das-onças. Não mais Coriolano, o da teúda e manteúda Glorinha. Muito menos o poético professor Josué que quase se estrompou ao plantar na testa do coronelão.

Não mais Maria Machadão, a mulé dama na chefia das pobres quengas do Bataclã, onde os homens faziam enxame para dormir com Zarolha, Teodora, Natascha. Ou para ver o príncipe Sandra fazendo mágica e a dançarina Anabela expondo sua branca nudez no palco do prostíbulo. Não mais Miss Pirangi e seu ximbungo, afe!, saindo picado do casarão na abafada noite baiana.

Não mais a loira e linda Dona Sinhazinha com o dentista Osmundo, estraçalhados a bala na cama adúltera, ele nu, ela só com meia preta e liga de renda. Não mais Florzinha e Quinquina, as duas beatas irmãs que guardavam seus três vinténs sem nunca achar para quem.

Não mais Dona Marialva com modos submissos e luvas de crochê. Dona Arminda com sua miuçalha de costura e sabedoria de aparadeira. Dona Dorotéia, com suas hipocrisias, misérias e securas. Nem mais a menina Lindinalva, perdidos painho e mainha, e bem diante do nariz toda a crueza que o mundo oferece aos órfãos fragilizados.

Não mais as outras meninas, a doce Gerusa encarcerada no convento, e a independente Malvina, a quem o engenheiro casado embromou. Não mais Mundinho, o heroi revolucionário que chegou para tirar Ilhéus do atraso em meio à ignorância da patuleia. Não mais Dona Conceição com seu princípio de lucidez. Não mais Dona Olga com sua quentura proporcional às medidas dos quadris. Não mais o Vesúvio com portas compridas, mesas redondas, água-dura porreta, comida da boa. E assoalho limpinho onde os fregueses pisavam na mão. Não mais o mar, a praça.

Não mais Tonico Bastos, que se lenhou ao cornear o turco Nacib, moço bonito de Gabriela, a retirante a quem lembraremos com sua sede de água fresca, seu banho de chafariz, a arraia no telhado, seu axé e seu auê. E a ojeriza em viver como dama de sociedade: Ave Maria! Gosto não, seu Nacib, vestido de seda, perfume de vidro, sapato apertado… Quero mais é cozinhar, é disso que eu gosto, e gosto de seu Nacib , para que casar?

Foi mal. Bestagem minha. Essa gente toda foi embora não. Só da telinha. Vai continuar na memória de quem a conheceu, além das páginas de Jorge Amado e dos atores da Globo. E vai reaparecer de repente junto a uma peneira cheia de acarajés, um prato de aipim com melaço, uma panelada de galinha de cabidela, um pedaço de bolo de tapioca, perninhas de caranguejo, caldeirões de vatapá, todas as comidas de que os santos gostam. Ou diante de uma simples moqueca de siri, daquelas que Gabriela preparava para Seu Nacib, tal como Dona Flor para Vadinho, passando generosa a receita: “ Cate o siri retirando a carne, delicada por demais. Lave bem pra tirar as impurezas. Mas não lave demais pra não acabar com o gosto de maresia…”

Por aqui, mais de 500 km distantes do mar, não temos siri fresco, nem catado, só mesmo congelado. Ainda assim dá para aproveitar as dicas dessas duas sensualíssimas personagens seduzidas pela culinária. Lave o siri, deixe escorrer e depois tempere com sal e limão. Deixe tomar gosto por meia hora. Pique em pedaços metade dos tomates, cebola, pimentão, cebolinha, coentro. Se não gostar do coentro, use salsinha. Machuque de leve com sal. A outra metade corte em rodelas. Numa panela de barro deite o azeite e refogue a primeira metade. Por cima disponha o siri delicadamente e deixe cozinhar por 15 minutos. Não acrescente água, a carne cozinhará no suco que se formar. Findo este tempo, espalhe por cima e com apetite de beleza as rodelas de pimentão e tomate, mais os cheiros verdes. Regue com leite de coco. Quando levantar fervura de novo, doure com o dendê. Sirva com arroz branco. E se deixe acompanhar dessa gente toda saída da imaginação de um ficcionista extraordinário, lido em 23 idiomas, incluído o baianês, ô xente!

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