Rústico de Cenoura


Bolo é carinho, afeto, comida da área do conforto, como sopa ou mingau. Bolo até cura doencinhas bobas da infância. Bolo na mesa transforma qualquer casa em lar e nos remete à ideia de família (Foto: Dirceu Garcia)

Bolo é carinho, afeto, comida da área do conforto, como sopa ou mingau. Bolo até cura doencinhas bobas da infância. Bolo na mesa transforma qualquer casa em lar e nos remete à ideia de família (Foto: Dirceu Garcia)

Quisera fazer um bolo como se criam poemas, reunindo ingredientes tal qual poetas agregam palavras, colando umas às outras até construir um todo de beleza admirável em suas camadas de sentidos palatáveis. Farinha substantiva para encorpar, açúcar adjetivo para adoçar, manteiga verbal para ligar, leite adverbial para amaciar, fermento hiperbólico para fazer crescer. Tudo misturado numa ordem que não precisaria ser prévia pois muito derivaria da intuição sensorial.

A leveza não viria apenas do ar, mas com as claras que o conteriam em camadas de especiarias e metáforas e contribuiriam para seu crescimento uniforme e consistente. Depois de bem homogeneizado em combinações de sabor indescritível, seria levado a lume, termo mais lírico que fogo, este pertencente aos domínios dos mitos primevos, embora também muito pertinente ao universo dos poemas. Lume é mais suave, cálido, amoroso, qualidades que sustentam um bolo que se desenforma perfeitamente pelas mãos de uma mãe numa cozinha onde há crianças. Bolo na mesa transforma qualquer casa em lar e nos remete à ideia de família.

Bolo é carinho, afeto, comida da área do conforto, como sopa e mingau. Bolo até cura algumas doencinhas bobas da infância. É gostosura simbólica e imprescindível em qualquer aniversário. Cortar um pedaço, soprar as velinhas sobre ele acesas e expressar um desejo depois de cantar parabéns está muito arraigado em nossa cultura e só em condições muito especiais uma mãe, por mais pobre que seja, deixa de fazer para seu filho.

Bolo é guloseima de férias, quando estão todos em casa e de repente uma voz infantil pede com jeitinho: “Estou com vontade de comer bolo! Faz um para mim?” Resistir, quem há-de? Bolo é item no qual pensamos quando os dias de dezembro avançam rumo ao Natal e às festas de fim de ano. Bolo é perfume bom todo dia, a qualquer hora, mas nos momentos de alegria especialmente. Ou, até, naqueles em que se busca restabelecer alguma alegria que perdeu o rumo e queremos de volta ao íntimo espaço de emoções de repente conturbadas. E um bolo de cenoura bem que traz em si o espírito de alimento restaurador, capaz de nos fazer viajar no tempo e sentir de novo gosto de colo.

Mas o bolo de cenoura deste domingo não é aquele tradicional, batido no liquidificador, coberto com calda de chocolate. Ele vem do livro de Rita Lobo, Panelinha, receitas que funcionam. Num texto meigo, onde se coloca cercada pelos filhos pequenos, ela conta que reencontrou a receita num caderno que durante anos ficou perdido. A massa é bem rústica, mas a textura é úmida e tem, em relação ao tradicional, mais camadas de sabor. Pode ser um bolo natalino, se acrescentarmos um punhadinho de nozes ou amêndoas, aumentando em 1/3 a farinha e para quatro o número de ovos. A farinha deve ser integral e o açúcar, mascavo. A cenoura ralada vai crua para a massa, junto com uvas passas-brancas e negras, canela em pó, noz-moscada e raspas de laranja. Nem preciso dizer que o perfume, especialmente quando este bolo está assando, é inebriante. Rita sugere que ele pode ser coberto com uma mistura de 300 gramas de cream cheese, 2 colheres de açúcar e gotas de baunilha batidos até formar um creme fofinho. Eu preferi servir o creme à parte. E considerei que simples, sem creme, apenas polvilhado com açúcar fica também ótimo. Tacinha de Porto ou xícara de café arrematam perfeitamente.

Ingredientes

2 cenouras grandes
1 1/3 xícaras (chá) de açúcar mascavo
3 ovos grandes
½ xícara (chá) de óleo
1 1/3 xícara (chá) de farinha de trigo integral
1 colher (chá) de fermento em pó
1 colher (chá) de canela em pó
1 pitada de noz moscada
Raspas de uma laranja grande
1 xícara (chá) de uvas passas
Manteiga para untar e farinha para polvilhar

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