Do cardápio de Babette


Do cardápio de Babette (Foto: divulgação)

Do cardápio de Babette (Foto: divulgação)

“Na cozinha, como em tudo na vida, o único verdadeiro obstáculo é o medo do fracasso”

Júlia Child (1912- 2004) apresentadora de programas de televisão e autora de livros de culinária

Há algumas dezenas de filmes produzidos ao longo da história do cinema onde temas ligados à culinária ganham o primeiro plano. Dentre eles, difícil esquecer A Festa de Babette, que conquistou em 1987 o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, a Palma de Ouro em Cannes e o Globo de Ouro. Baseia-se num conto da dinamarquesa Karen Blixen, que escreveu outra história curta levada igualmente ao cinema: A Fazenda Africana. Esta escritora tem um raro talento para as descrições plásticas e sabe conferir sabor ao que narra.

A história roteirizada e dirigida por Gabriel Axel resgata em flash back a trajetória da jovem Babette Harsan, que se refugia na casa de duas solteironas num vilarejo da Dinamarca para escapar da repressão à Comuna de Paris, primeiro governo operário da história, que durou de março a maio de 1871. Acolhida pelas filhas de um pastor rígido, passa a trabalhar como faxineira e cozinheira. Dezenas de anos depois, ganha na loteria e realiza o sonho de preparar para a família, que comemora o centenário de seu chefe, um jantar à francesa. Muito antes disso, porém, o telespectador atento terá percebido o gosto e a criatividade culinária de Babette, sufocada num meio onde a extrema frugalidade é sinônimo de virtude e qualquer prazer, mesmo o da mesa, pode significar um atentado ao que se considera virtude.

Depois de uma batalha onde usa de suas habilidades também verbais, Babette consegue convencer seus patrões a aceitarem seu oferecimento. O preparo deste jantar, que ocupa parte expressiva do filme, é na verdade seu centro nevrálgico. Impossível ficar impassível diante da busca da cozinheira pelos melhores ingredientes, seu cuidado ao redor das panelas, a alegria brilhante ao decorar os pratos. Essa paixão pela culinária de seu país, que ela enfim poderá exibir aos estrangeiros, transparece em seus mínimos gestos e nos oferece o espetáculo sempre belo que é o de alguém no exercício daquilo que mais lhe agrada realizar. Para Babette, executar receitas que são parte de uma tradição que ela preza representa o que há de melhor em sua vida. Amálgama de sensações e prazeres gustativos, olfativos e táteis, seus pratos mobilizam as pessoas que a cercam, na casa e na pequena vila, que se colore com o deleite gastronômico capaz de sacudir séculos de rigidez dogmática. Quem disse que o prazer gastronômico é pecaminoso? Despertados para a beleza e o sabor das elaborações de Babette, os comensais celebram a vida.

Três parágrafos para explicar a minha escolha pelos Blinis Demidoff deste último domingo do ano. Eles são o segundo prato do cardápio de Babette, que começa o banquete com Potage à la tortue (sopa de tartaruga) e tem como prato principal Cailles em sarcophage et sauce perigourdin ( codornas recheadas com foie gras, regadas com molho de vinho incrementado com trufas frescas). Depois, salada e queijos. Para fechar, Baba-au-Rhum, bolinho redondo de massa levedada, umedecido com calda de rum. Há tempos queria experimentar os blinis, mas por aqui o caviar continua muito caro. Desistia a cada vez que o desejo me acometia. Acontece que o encontrei a preço muito bom no Chile, onde estive em novembro. Comprei dois potinhos – um negro, outro vermelho. E fiz a receita de blinis com espinafre, uma experiência interessante. Os de Babette, com trigo sarraceno, eram cobertos por ovas de esturjão. Mesmo assim me diverti, achei que ficou boa e bonita a minha versão. As panquequinhas podem ainda ser servidas em pilha, com queijo, tomates e frutas ao lado, como num brunch: crianças adoram assim. Ou, para uma ocasião mais refinada, cobertas por molho branco ou creme batido com limão, mais fatias de salmão defumado.

Neste caso vira uma entrada também muito chique.

Ingredientes

Panquecas
2 xícaras (chá)
de espinafre cozido
1 ½ xícara (chá) de leite
1 ovo
2 colheres (sopa)
de manteiga derretida
1 xícara (chá)
de farinha de trigo
1 pitada de açúcar
1 pitada de noz moscada
Sal e pimenta-do-reino a gosto
Manteiga para untar
a frigideira
Creme
1 xícara de creme de leite
2 colheres de suco de limão

1 – Cozinhe o espinafre no vapor e escorra até ficar sequinho

2 – No liquidificador bata espinafre com leite e junte os outros ingredientes

3 – Derrame a mistura numa tigela, leve à geladeira por uma hora

4 – Despeje porções pequenas na tefal untada e vire quando formar bolhas

5 – Retire com espumadeira e reserve até a hora de usar.

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