Creme de manga


Árvore da minha meninice, como a de tantas pessoas de minha geração, a mangueira não me abandona nunca e ver uma delas em dezembro é lembrar a primeira, a que achava gigantesca e, hoje, olhando-a da rua por onde ocasionalmente transito, me parece mirrada (Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca)

Árvore da minha meninice, como a de tantas pessoas de minha geração, a mangueira não me abandona nunca e ver uma delas em dezembro é lembrar a primeira, a que achava gigantesca e, hoje, olhando-a da rua por onde ocasionalmente transito, me parece mirrada (Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca)

“ Da manga-rosa quero o gosto e o sumo/ Melão maduro, sapoti, juá/ Jabuticaba teu olhar maduro/ Beijo travoso de umbucajá.”
Trecho da canção Da Manga-Rosa, do compositor cearense Ednaldo Leal

É ali pelo fim do mês de junho que posso fazer uma prévia sobre a quantidade de mangas que teremos no nosso rancho Bela Vista, em Rifaina. Por volta do São Pedro, em véspera do aniversário deste Comércio, sob céu muito azul e quase nenhuma nuvem em nossa região, é possível perceber a irrupção das primeiras flores, miudinhas, em esparramados cachos piramidais, de um branco meio encardido. O volume que fazem nas copas frondosas denuncia o futuro espetáculo, abundante ou escasso, de qualquer forma aquele que vai permitir aos meus olhos vagar outra vez pela infância. Árvore da minha meninice, como a de tantas pessoas de minha geração, a mangueira não me abandona e ver uma delas em dezembro é lembrar a primeira, que achava gigantesca e hoje, olhando-a da rua por onde ocasionalmente transito, me parece mirrada.

Este ano as mangueiras estão carregadas. As chuvas caíram no momento certo e não houve tempestade que derrubasse os frutos verdes e pesados. Aqueles que teriam feito uma vizinha de minha mãe correr a reuni-los em latas de vinte litros e depois em tachos de cobre para produzir um doce muito bom, melhor que marmelada, para mim o mais fino que conheci em criança.

Por toda a parte, me dizem os que amam as árvores, as mangueiras estão exibindo aos homens seus frutos verdes, amarelos e rosados, não raro juntos e misturados, pois não amadurecem ao mesmo tempo. Colhidas pelas mãos, mal as tocamos, estas mangas de quintais ou de pomares interioranos são mais doces, cheirosas, distantes das frutas geneticamente modificadas cujas descrições às vezes me fazem rir. Pois como não achar graça na informação do Google, que afirma ser a Tommy Atkins (perfeita na forma e cor, como a vemos nos supermercados) neta de uma tal Mulgoba e filha da Haden com pai desconhecido (sic) como sua irmã, a Keitty? Nunca suspeitara da filiação das mangas que comemos. Acreditava-as descendentes diretas daquelas trazidas pelos portugueses desde Kerala, na Índia, e que em terras brasileiras se aclimataram de forma magnífica, tanto quanto em Moçambique e Angola.

No rancho temos poucos mas suficientes pés para nossos paladares ansiosos por frutas frescas, no calorão sufocante do período das festas de fim de ano: coração-de-boi, pelo tamanho; rubi, pela casca quase púrpura; espada, pelo óbvio formato; jasmim, pelo cheiro característico; ourinho e rosa, também pelas pelas cores; coquinho, pela leve similaridade com o macaúba; e a já muito rara Bourbon, que nunca fica amarela, é sempre verde mesmo quando madura. Cada uma delas guarda um sabor distintivo, como seu formato, e todas latejam sua caipirice longe das Palmers, Van Dikes, Duncans, Irwins, Surprise e tantas outras selecionadas especialmente na Flórida nos anos 40 e introduzidas em nosso país nas décadas seguintes, substituindo as primevas. Hoje já se torna difícil encontrar aquela conhecida pelo adjetivo “comum”, e que as crianças de algumas gerações saborearam sem talheres, rasgando a casca com dentes, mastigando a polpa e lambuzando o rosto. Haverá um tempo em que as ainda hoje resistentes serão apenas lembranças. As que estarão à venda farão par aos melões aguados, aos figos insossos, às ameixas descoradas, às uvas ácidas, às surpreendentes goiabas, a cada ano mais infladas e oh – milagre! – sem nenhum bichinho dentro, expulsa de suas carnes vermelhas toda doçura. Frutas de isopor, me parecem muitas delas.

Gosto de manga in natura; polvilhada com páprica, como a saboreiam no México; cortada em tiras, temperada com balsâmico e misturada à salada de folhas verdes; sob forma de chutney, como é consumida na Índia; como cobertura de cheesecake, substituindo frutas vermelhas; integrando o creme que hoje me motiva a escrever este texto. Leve, gostoso, fácil de fazer e bonito para a gente olhar, ele cumpre sua função de refrescante sobremesa de verão. Tempo de férias, tempo de doçuras. Experimente na forma ou na taça, exibindo sua criatividade na decoração. Começamos a comer com os olhos. Do mesmo jeito como se começa a amar, segundo Paul Valéry.

Ingredientes

3 mangas maduras e firmes
½ xícara (chá) de açúcar refinado
1 envelope de gelatina sem cor e sabor
1 xícara (chá) de água
1 xícara (chá) de creme de leite

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