Sorvete no limão


O inusitado e atraente fica por conta da apresentação: sorvete colocado em cumbuca de limão siciliano esvaziado da polpa, coada para obtenção do suco, ingrediente também presente com seu perfume e sabor (Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca)

O inusitado e atraente fica por conta da apresentação: sorvete colocado em cumbuca de limão siciliano esvaziado da polpa, coada para obtenção do suco, ingrediente também presente com seu perfume e sabor (Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca)

“Meu limão, meu limoeiro
Meu pé de jacarandá
Uma vez tindolelê
Outra vez tindolalá
A folhinha do alecrim
Cheira mais quando pisada
Há muita gente que é assim
Quer mais bem se desprezada”

Cantiga popular brasileira

“Guarda guà chisto giardino/ Siente, siè’ sti sciure arance/Nu profumo accussi fino/ Dint’o core se ne va”. Traduzindo: “Olha só esse jardim/ Sinta, sinta as flores de laranja/ Um perfume tão delicado/ Toca fundo o coração”. São versos de uma já secular música napolitana, Torna a Sorrento, escrita por Ernesto e Giambatista Curtis, gravada por vozes maravilhosas como as dos tenores Luciano Pavarotti, José Carreras, Plácido Domingos, Andrea Bocelli, entre outros. Amo esta canção desde a adolescência e a tenho em várias vozes, inclusive na de Elvis Presley que traduziu o título para Surrender. É uma narrativa a ser cantada/contada por homens: nunca soube de alguma cantora que a tivesse no seu repertório. É o tipo de letra que só cai bem nos timbres masculinos: pede-se à amada que retorne à espetacular Surriento. A fala local troca a vogal o por u; e enxerta um i que desaparece em outras regiões da Itália.

De fato, a cidade pequena, sobre montanhas, rente ao mar, a 50 km de Nápoles, é de beleza estonteante. Sou grata por ter tido a oportunidade de lá estar no último maio e rever o azul esverdeado do Mediterrâneo, reencontrar o sabor acentuadamente doce dos tomates, sentir por toda parte o aroma inebriante do limão siciliano. Plantado não apenas na Sicília, ele atravessa o Estreito de Messina e irrompe pelo sul da bota nas calçadas, nos jardins, nos pátios dos restaurantes e hotéis, na louça artesanal, nas toalhas, nos panos de cozinha, nas telas, nos produtos de higiene, nos temas de escultores, nas placas comerciais e, obviamente, nos textos dos escritores, desde que Goethe, na sua viagem célebre ao país, inspirou-se nele e o cantou em versos. São mesmo lindos os pequenos pés carregados de limão amarelo-ouro a que os italianos chamam apenas limone. Originários do Oriente, talvez da Índia, chegaram à Sicília e ao sul da Itália levados pelos árabes no século XI.

Na culinária, esses limões cujas cascas são base de bebida muito consumida pelos locais, o limoncello, têm presença cada vez mais garantida nas mesas de bom gosto. Pouco calóricos e com propriedades antioxidantes, prestam-se a preservar e acentuar o sabor dos alimentos que acompanham. Grandes chefs são unânimes em afirmar que o siciliano, muito mais que o china, o galego e o taiti, agrega sabor e é versátil, razão pela qual o empregam fresco ou sob forma de conserva em carnes, peixes, frutos do mar e massas.

Comprei diversos livros de culinária na minha viagem à Itália, um deles em Sorrento, onde experimentei incríveis sorvetes de limão e no limão. De um deles tirei a receita hoje aqui reproduzida. Trata-se de um sorvete de creme ao qual se juntam suco de limão siciliano e coco ralado queimado. O inusitado fica na apresentação: a massa é colocada dentro das cumbucas dos limões esvaziados para a retirada do suco. Para isso use faquinha bem afiada e uma tesoura de cozinha, evitando perfurar a fruta. A técnica é fácil. Corte a saliência do lado do cabo para firmar o limão numa superfície plana. Depois, uma tampa mais grossa em cima, a da pontinha, para cavoucar a polpa e cortar as partes fibrosas. O primeiro pode parecer mais difícil. No segundo você estará craque. A polpa é passada por peneira para a obtenção do suco. E se não encontrar coco queimado, queime-o você mesma. Basta deixá-lo amorenar numa frigideira tefal, por menos de cinco minutos, tendo o cuidado de mexer o tempo todo com colher de pau para que não passe do ponto. Os ingredientes são batidos no liquidificador e colocados nas cascas. Depois de pronto enfeite com coco ralado, raspas de limão e duas folhas verdes, de algum limoeiro qualquer. Como nosso clima tropical não é ideal para estes cítricos, os que nos chegam são importados e oferecidos sem folhas. Começou a temporada deles, já encontrados nos bons varejões. Aproveite. Neste calor de janeiro, são uma opção deliciosamente refrescante.

Ingredientes

5 limões sicilianos
4 bolas de sorvete de creme
4 colheres (sobremesa) de suco de limão siciliano
4 colheres (sopa) de coco ralado queimado (2 para cobertura)
4 colheres (sopa) de leite

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