Frango de férias


Elementos diversos se reúnem no imaginário quando nos sentamos para uma refeição. Viajamos nas suas cores, nos seus cheiros, nas suas formas. Evocamos momentos que nos foram especiais porque nada mais ligado às lembranças que o olfato e o paladar (Foto: Dirceu Garcia)

Elementos diversos se reúnem no imaginário quando nos sentamos para uma refeição. Viajamos nas suas cores, nos seus cheiros, nas suas formas. Evocamos momentos que nos foram especiais porque nada mais ligado às lembranças que o olfato e o paladar (Foto: Dirceu Garcia)

“Cozinhar requer adivinhação e improvisação, experimentação e substituição, lidar com o fracasso e a incerteza de uma forma criativa”
Paul Theroux (1941),
 romancista norte-americano especialista em textos sobre viagens

Por tudo o que diz Paul Theroux aí em cima, na cozinha a criatividade vale ouro. Muitas vezes temos em mãos diferentes ingredientes, mas as receitas na quais nos habituamos a empregá-los já cansaram a família e a nós próprios. Sacudir o hábito é importante para oxigenar os órgãos dos sentidos, especialmente visão, olfato e paladar, que também se entediam diante das obviedades.

Não é só para matar a fome que nos nutrimos, isso fica bem claro pela nossa experiência pessoal. Há uma série de elementos reunidos no imaginário quando nos sentamos para uma refeição. Viajamos nas suas cores, nos seus cheiros, nas suas formas e texturas. Evocamos momentos porque nada mais ligado às lembranças que o olfato e o paladar. Proust, o romancista francês, foi dos primeiros a falar disso de forma refinadamente estética: uma catedral de palavras, uma multidão de personagens, um imenso encadeamento de fatos, um conjunto de lugares díspares se constroem enquanto Marcel saboreia o biscoito chamado madeleine, que molhou na xícara de chá de tília. Para glória da literatura francesa, e deslumbramento de milhões de leitores ao redor do mundo, nascia ali Em busca do tempo perdido.

Nós podemos ser remetidos as passado por um sabor e em geral nos alegramos diante de um alimento que nos chega em bonita apresentação. Sair da rotina beneficia quem empreende a mudança e quem vai experimentá-la. Mas a ousadia tem o seu preço: quando inventamos, corremos riscos, como em tudo na vida. Se o resultado é positivo, quanta alegria para quem assina o prato e satisfação para os felizardos que o aprovam. Caso contrário…

Se você tem na geladeira desse período de férias uns pedaços de frango que a estão desafiando a sair dos repetecos, não tenha receio de dizer “não” aos insossos ensopados e frugais grelhados. Existem dezenas de formas de surpreender com uma receita diferente. Assim, se procura um prato gostoso mas fácil de preparar, com uma apresentação bonita para alegrar os olhos, perfume inebriante, sabor agridoce e textura crocante, experimente a receita que hoje ilustra esta página. Sofisticada e saborosa, parece ter saído das mãos de um chef. A soma do adocicado damasco, da ácida maçã, da picante cebola roxa, da apimentada dedo-de-moça e da cítrica laranja redunda numa composição dourada e muito natural, além de pouco calórica, pois nem manteiga entra nessa combinação. Aliás, depois, sequer resta muita louça para lavar, pois os ingredientes assados seguem direto, no refratário, do forno para a mesa.

Tradicionalmente o prato é feito com coxas de frango, mas podem ser usadas também sobrecoxas e até o peito. É importante manter a pele. Lave bem os pedaços e seque-os com pano de prato. Num bol ou tigela misture a geleia de damasco com sal e um pouquinho de caldo de laranja. Se não tiver a geleia de damasco, use a de laranja, também funciona. Levante a pele das coxas e besunte a carne com a geleia. Volte a pele a seu lugar e besunte-a de novo com a mistura. Reserve. Corte as maçãs em quatro e depois em oito pedaços. Faça o mesmo com as cebolas roxas, que têm um sabor mais delicado que a comum e uma cor linda. Esprema as laranjas para extrair o suco; se estiverem doces, acrescente uma colher (sopa) de limão. Descarte as sementes da pimenta e pique-a em pedacinhos. Descasque os dentes de alho. Num refratário médio coloque coxas temperadas, maçãs, cebolas e pimenta cortadas, dentes de alho inteiros. Os ingredientes devem ficar bem juntinhos, numa única camada. Sobre ela derrame o suco de laranja. Leve ao forno sem cobrir por quarenta minutos. Quando dourar, teste com a ponta de um garfo para ver se a carne está macia. Se ainda estiver oferecendo resistência, acrescente um pouquinho de suco de laranja e deixe mais alguns minutos no forno. Sirva com salada de folhas – alface, rúcula ou agrião, temperadas na hora com molho de balsâmico e mel misturados em partes iguais. Almeirão, cortado à julienne, ou seja, bem fininho, temperado com outro molho, de limão, azeite e sal, também acompanha de forma perfeita.

Ingredientes

8 coxas de frango com pele
6 colheres (sobremesa) de geleia de damasco
3 cebolas roxas
6 maçãs pequenas (de preferência ácidas)
5 dentes de alho
3 laranjas grandes (também ácidas) para suco
1 pimenta dedo-de-moça
Sal a gosto

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