Salada de Carnaval


Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca

Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca

Sonia Machiavelli
Editora

“De abóbora vai melão
De melão vai melancia
Faz doce, sinhá
Faz doce, sinhá
Faz doce de maracujá”
Cantiga de roda

A ciranda destacada acima reúne frutos bonitos e muito associados aos trópicos e à Terra Brasilis. Mas só o maracujá é planta nativa, das primeiras a chamar a atenção dos colonizadores portugueses chegados à costa do Brasil em 1500. “Alimento que se come na cuia”, assim traduziríamos do tupi para o português o nome do fruto ácido, de polpa amarela e sementes escuras, oriundo de uma das mais bonitas flores que se conhecem na flora brasileira.

Tupiniquim, o maracujá ; abóbora, melão e melancia, não. A abóbora já era velha conhecida dos europeus e até a etimologia conta sua história milenar a partir de plagas espanholas. Melão e melancia vieram da África, segunda parada depois da Ásia, e não pelas mãos dos donatários, como se supôs um dia, e sim na bagagem de bantos e sudaneses, para cá trazidos com promessas de terras e ganhos, e então escravizados. Fáceis de brotar e de se reproduzir, nada exigentes quanto ao solo, preferindo inclusive o arenoso, sementes de melancia e melão ganharam em nosso território muito espaço. Plantas rastejantes, treparam em telhados, varais, cercas, morros e serras. Seus frutos conquistaram o paladar daquele que, resultando de tantos cruzamentos, seria chamado brasileiro.

A melancia vem sendo consumida por todo esse tempo quase sempre in natura. Nada mais bem-vindo que um pedaço que nos chega bem fresco em dia de muito calor. E o que dizer de sua polpa vermelha e intensa, acolhendo sementes escuras, tudo protegido pela casca verde brilhante? Forma e fundo foram inspirando chefs, que nos últimos anos sentiram-se desafiados a criar algo diferente com a fruta. Vieram então sucos, ponches, drinks, lassis, raspadinhas, espumones, sorvetes, doces, geleias, mousses, bolos, pudins e até balas. Ou seja, tudo sob crivo doce.

Andei pensando se não estaria destinada à melancia a sina do abacate, pois nós somos o único povo a comê-lo com açúcar. No México, Peru, Argentina e Chile é prato salgado e apimentado, aparecendo em saladas e pastas, além de acompanhar frutos do mar. O mesmo se diga da manga e do próprio melão, embora este já tenha por aqui conquistado um lugar junto com o presunto, em combinação que se presta muito bem ao papel de entrada.

Assim, diante de um cenário por demais adocicado, experimentei com curiosidade e prazer a sugestão da chef Rita Atrib, do restaurante Petit Comité, em São Paulo. Trata-se de uma salada ótima para ser incluída no cardápio de verão e no menu destes dias de Carnaval. Porque mesmo os que estão fora da folia ficam meio a reboque do ócio, pois é por demais sabido que o Brasil para nestes dias. É fato, do lado de baixo do Equador a vida de trabalho só começa pra valer depois de o Carnaval passar. E num clima de malemolência, ninguém se vê pilotando fogão. Sob este aspecto, a Salada de Carnaval é o que temos de combinação perfeita, leve e descomplicada. Ou boa, barata e bela, como dizia aquele slogan de antiga casa de brinquedos infantis.

Veja como é fácil. Descasque e corte a cebola roxa na metade e, depois, em finas meias luas a que os gourmets também chamam de plumas. Coloque-as numa tigela pequena, junto com o suco dos limões. Se não estiverem sumarentos, dobre a quantidade. Passe a ricota no lado fino do ralo, tempere com sal e pimenta, molhe as mãos e faça bolinhas do tamanho de azeitonas. Em seguida, cuide da melancia. Elimine suas sementes e usando boleador retire bolinhas da polpa e reserve. Se não tiver boleador, corte a polpa em triângulos de três centímetros. Coloque as bolinhas (ou triângulos) de melancia e ricota numa saladeira larga e rasa. Rasgue as folhas de salsinha como se fosse verdura a ser utilizada em saladas e junte à mistura de melancia e queijo. Acrescente a hortelã. Disponha as cebolas e o suco de limão sobre os ingredientes reunidos. Envolva tudo delicadamente com azeite. Arremate com azeitonas e pitada generosa de pimenta-do-reino. Sirva em seguida.

 

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