Lanche de sobras


Dependendo do parentesco entre ingredientes, de suas similitudes ou similaridades, podemos produzir pratos ótimos que não lembrarão em nenhum instante que se agrupam sob o nome de “sobras”. (Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca)

Dependendo do parentesco entre ingredientes, de suas similitudes ou similaridades, podemos produzir pratos ótimos que não lembrarão em nenhum instante que se agrupam sob o nome de “sobras”. (Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca)

Sonia Machiavelli

Editora

“Uns têm carne e não querem comer. Outros não têm e querem. Mas nós temos e queremos. Por isso damos graças a Deus.”

Oração para antes das refeições
Robert Burns ( 1759-1796), poeta escocês.

Às vezes acontece de a gente se deparar na cozinha com ingredientes que parecem ter perdido a validade não pela qualidade mas segundo critérios ordenados por nossos altos padrões de consumo. Não é que para muitos seriam refeição completa? Tomates que já não estão mais com a beleza plástica que nos levou a escolhê-los na banca da feira ou na gôndola do varejão. Pimentas que estavam lindíssimas, brilhando vermelhas entre verduras e agora exibem algumas ruguinhas na superfície. Pão trincando que compramos na padaria movidos, no dia anterior, pela crocância e pelo aroma mas horas depois jazem murchos e anódinos no armário. Queijo tipo Minas com um je-ne-sais-quoi de abandono. Uns restinhos de salsa, cebolinha, hortelã, funcho que restaram de outras receitas e dão um toque de frescor a tudo onde se encostam porque verde é verde. O que fazer com isso? Jogar fora? Não; na cozinha a gente não deve se desfazer de nada que ainda está sadio, até porque é um tanto imoral destinar ao lixo alimentos que podem matar a fome de alguém.

Dependendo do parentesco entre ingredientes, de suas similitudes ou similaridades, podemos produzir pratos ótimos, que não lembrarão em nenhum instante que foram comprados para outros fins. Com tomates que não estão mais tão frescos para a salada, você pode fazer molhos, geleias, compotas maravilhosas. Pão vira mil coisas, a mais prosaica delas farinha de rosca, e aí muda até de gênero. Queijo não se perde nunca: entra em molhos, patês, suflês, coberturas; combina-se com outros ingredientes em recheio de tortas doces e salgadas; é ralado e guardado para polvilhar sopas ou massas. Minha mãe colocava até cascas de queijo sobre o arroz que estava secando no fogão e ficava uma delícia!

Dia desses, diante de uns pães murchos que jaziam numa cestinha de vime, de uma dúzia de tomates bem maduros mas já sem firmeza na gaveta da geladeira, e um pedaço de queijo abandonado porque parecia sem gosto, pensei em que redundaria reuni-los numa certa ordem e temperatura. Imaginei as óbvias torradinhas com tomate/queijo/orégano/azeite de oliva, de que todo mundo gosta. Mas me lembrando de uma receita que vira há muito tempo num canal de televisão, quis experimentar algo novo e ver a quantas andava minha memória.

Acabei fazendo o lanche que o leitor vê na ilustração deste texto. Minhas cobaias aprovaram. Depois pensei que ele poderia até virar uma entrada, se cortado em rodelas para ficar mais delicado. Comecei pelos tomates. Lavei, pelei, parti ao meio sem tirar sementes. Levei ao fogo com açúcar mascavo, rama de canela, pimenta dedo-de-moça ( sem as sementes e bem picadinha) vinho e água. Esperei levantar fervura, baixei a chama e deixei cozinhando até o ponto de compota e não de geléia. De vez em quando mexia com a colher de pau e me deixava inundar por um aroma maravilhoso: não imaginava que a mistura desses ingredientes produzisse perfume tão bom. Quando a calda ficou bem grossa, mas ainda eram perceptíveis os pedaços de tomate, desliguei a chama. Coloquei numa tigela, esperei esfriar e acondicionei num vidro porque rendeu mais do que eu esperava.

Passei aos pães. Cortei na linha do comprimento, besuntei com um mínimo de manteiga, coloquei no forno para tostar. Olhei o queijo e quase desanimei. Para dar uma forma diferente a ele, que estava molengo, modelei uns canudos com um copinho. Naquele momento pensei que a ricota poderia dar certo também. Sobre as metades douradinhas dos pães, dispus os canudos de queijo e voltei ao forno até que este amolecesse. Quando isso aconteceu, retirei a forma do forno e despejei uma boa colherada da compota de tomates sobre o queijo. Ajeitei cada metade sobre um pratinho de sobremesa e decorei com o verde mais viçoso que tinha, uns raminhos de broto de alfafa. Mas acredito que teria ficado melhor se guarnecido com um raminho de alecrim/ alecrim dourado/ que nasceu no campo/ sem ser semeado…

Ingredientes

12 tomates
2 pimentas dedo-de-moça (sem sementes, picadas)
1 xícara (chá) de açúcar mascavo
250 ml de vinho tinto seco
150 ml de água
2 ramas de canela
4 pães franceses dormidos
½ queijo Minas (ou ricota)
1 colher de manteiga (para untar os pães)

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