(Foto: Comércio da Franca / Dirceu Garcia)

(Foto: Comércio da Franca / Dirceu Garcia)

Cientistas ainda ignoram muitos detalhes do mecanismo de funcionamento do olfato, o primeiro dos sentidos a ser desenvolvido pelo ser humano; mas poetas e prosadores, pela via da percepção, já tiraram dele páginas inesquecíveis. Um ficcionista francês, Marcel Proust, dos dez maiores escritores do século XX, ergueu a partir de uma sensação olfativa, romance de mais de mil páginas, que se leem com enorme prazer. Sua catedral de personagens, gerações, acontecimentos e edificações chamada Em busca do tempo perdido deve seus fundamentos a uma xícara de chá de tília. Ali o menino molhou uma madeleine, biscoito adocicado cujo formato lembra uma patinha de gato, oferecida na distante e idílica Combray pela tia Léonie. A combinação de cheiros e gostos, fixada naquele instante pelo olfato e paladar, ficou incrustada nos escaninhos da memória e, associada às sofisticadas nuances da vida emocional, revelou-se no futuro, o histórico e o ficcional, motivo altamente estético em temas que imortalizaram o escritor.

Outro grande nas letras, Eça de Queirós, fez muitas vezes em seus romances o elogio da comida portuguesa com os bacalhaus de tantas modas ( que a amiga de Luísa, em O primo Basílio, gostava com muito alho), a doçaria dos conventos onde as monjas mourejavam, os odores marítimos ou alentejanos, toucinhos do céu e papos de anjos. No Brasil coube ao sociólogo Gilberto Freyre falar dos cheiros da senzala que ganharam a casa grande. A Jorge Amado, mostrar a gastronomia baiana pelas mãos de Dona Flor: quem, tendo lido Dona Flor e seus dois maridos há de se esquecer da moqueca de siri mole que a professora de artes culinárias preparava para Vadinho? Falo aqui de cheiros de comida, porque esta é uma página de culinária. Há outros, inolvidáveis, que os líricos especialmente souberam captar tão bem, inclusive em versos de nossa música popular: quantas metáforas sinestésicas em versos onde os cheiros se fazem representar imponentes!

O que tem peixe frito a ver com tudo isso? É que ao fritar o filé de peixe que estampa esta página, veio-me súbito e irrecorrível à memória os anos em que fomos, família inteira, durante cinco verões, passar férias em Itanhaém, então muito tranquila, o mar à porta de casa. Dormíamos sob o rumor das ondas, acordávamos com o sol intrometendo-se pelas frestas da persiana. Tempos inesquecíveis, os filhos pequenos e os sobrinhos um pouco maiores, o que não impedia que brincassem juntos fazendo aqueles incríveis castelos na areia, dos quais não se cansavam. Nem dos castelos nem do peixe frito, que devoravam com uma boca tão boa, de fome, de alegria, de satisfação por estarem livres de horários e plenos de horas vividas com entusiasmo e imaginação.

O peixe comprávamos na cidade, pois a casa que alugávamos ficava naquela praia onde foi gravada a novela Mulheres de Areia, razão pela qual acolhia turistas ansiosos por ver o lugar onde Tonho da Lua conversava ora com Ruth, ora com Raquel, as gêmeas interpretadas por Eva Wilma. Por vezes comprávamos ali mesmo, de pescadores que tinham saído ao mar na madrugada e voltavam antes do almoço. Havia fartura de “porquinhos”, um peixe arredondado de que as crianças gostavam muito e estava quase todo dia presente à mesa. Fritos, dourados, uma tentação para quem voltava da praia com areia pelos cabelos e fome de leão. Do pequeno portão de madeira pintado de branco os meninos festejavam a refeição que se anunciava pelo cheiro. Este mesmo cheiro que senti e como se misturado à maresia me fez por um instante retornar a um passado que já fica distante mas não soterrado.

Eu não empanava o peixe senão em ovos e farinhas- primeiro de trigo, depois de rosca. Ficavam ótimos. Mas se naquele tempo eu tivesse aprendido essa nova técnica que vou explicar, com certeza teria economizado meu tempo na cozinha. Sem contar que o peixe teria ficado muito mais crocante e sequinho. Tome nota e depois me diga se não fica mesmo bom. Tempere o peixe com sal e reserve. Numa vasilha desmanche o fermento com as pontas dos dedos. Junte a cerveja, mexa, coloque pitada de sal. Adicione a farinha de trigo aos poucos e vá mexendo com a ajuda de um batedor. Misture até obter uma massa homogênea. Empane os filés na farinha e depois os passe na massa líquida. Frite em óleo bem quente até dourar. Sirva com batatas fritas, limão, maionese… Estranhou o fermento? Eu também. Mas desde que experimentei assim, nunca mais fritei filés de outro modo. Ficam ótimos!

INGREDIENTES

• 2 filés de pescada branca
• 2 copos de cerveja gelada
• 150 gramas de farinha de trigo
• 80 gramas de fermento biológico
• Sal a gosto
• Farinha de trigo para empanar

porção: duas
dificuldade: média
preço: econômica

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