Pêssegos Melba


Olhando a cor e forma de pêssegos maduros compreende-se porque tantos pintores, dos românticos aos impressionistas, dos acadêmicos aos pós-modernistas elegeram a fruta para compor suas naturezas mortas (Foto: Dirceu Garcia / Comércio da Franca)

Olhando a cor e forma de pêssegos maduros compreende-se porque tantos pintores, dos românticos aos impressionistas, dos acadêmicos aos pós-modernistas elegeram a fruta para compor suas naturezas mortas (Foto: Dirceu Garcia / Comércio da Franca)

“Estava almoçando numa saleta no andar superior do Hotel Savoy, em uma daquelas gloriosas manhãs do começo da primavera, quando Londres é o acesso mais próximo ao paraíso que a maioria de nós jamais alcança. Sentia fome, e foi-me servido um excelente almoço. Quase ao final da refeição, chegou uma travessa de prata, destampada em minha frente, com uma mensagem dizendo que o prato havia sido preparado especialmente para mim. Experimentei. ‘É delicioso’, eu disse. E me dirigi ao garçon que me servia: ‘Pergunte ao chef como se chama este doce’. A resposta foi que não tinha nenhum nome, mas que o Sr. Escoffier ficaria honrado se pudesse chamá-lo de ‘Pêssego Melba’. Com o maior prazer respondi que poderia, e não pensei mais nisso. No entanto, logo depois, ‘Pêssego Melba’ era febre em Londres”.

Este trecho está no livro Melodies and Memories, biografia de Nellie Melba publicada na Austrália em 1925. Em outra obra do mesmo gênero, Escoffier, o Rei dos Chefs, assinada por Kenneth James, o episódio é retomado e datado de 1893. Neste ano, a cantora lírica encontrava-se em Londres, onde defendia o papel de Nedda, em Pagliacci, naquela que seria sua casa artística por muitos anos, o Covent Garden. Prima donna de pequeno repertório e grande sucesso entre o final da Era Vitoriana e o começo do século XX, Nellie nasceu Helen Porter Mitchel, em 1861, adotando na Europa o apelido familiar e como sobrenome uma corruptela de Melbourne, sua cidade natal. Foi Rosina (O Barbeiro de Sevilha), Ofélia (Hamlet), Gilda (Rigoletto), Margarida (Fausto), Desdêmona Otelo), Violeta (La Traviata), Aída e Julieta, E Mimi (em La Bohème), de quem tomou uma frase como epitáfio: “Adeus, sem rancor”. Uma carreira maravilhosa. Tinha que nomear uma sobremesa espetacular, quer na apresentação, quer no sabor.

Veio-me à mente reproduzir uma taça Melba para esta página porque já começaram a aparecer pêssegos nas feiras e varejões. E eu não resisto à beleza desta fruta, que faz seu preâmbulo às festas natalinas, e sempre me convida a preparar alguma coisa onde possa entrar como ingrediente de destaque.

Para a taça de pêssego a proporção usual é de duas metades de pêssegos, uma bola de sorvete de baunilha, um jato de chantilly, duas boas colheradas de calda de framboesa e um punhado de amêndoas laminadas. Nesse ponto sei que vão aparecer duas perguntas. Pode-se fazer com pêssegos industrializados? É possível substituir a framboesa por outra fruta vermelha? Poder, pode; embora o resultado final não seja o mesmo. A textura do pêssego e seu aroma, também a cor e a fragrância da framboesa, são elementos definidores de um clássico. Por isso acho que estamos na época ideal para preparar o doce, pois a partir de agora as frutas vão aparecer nas gôndolas cada vez com mais frequência.

A técnica é das mais simples. Cozinhe as framboesas com açúcar e suco de limão por dez minutos; filtre para obter o xarope. Pele os pêssegos em água fervente por dois minutos, cozinhe por mais três na calda, parta ao meio, retire o caroço. Estando tudo frio, monte a taça: no fundo, as metades de pêssego; em cima, a bola de sorvete; a seguir, o xarope. Finalize com o chantilly e as amêndoas.

Ingredientes

8 pêssegos pequenos ou 4 grandes
250 gramas de framboesa
4 colheres de açúcar
1 limão
50 gramas de amêndoas em lâminas
500 ml de sorvete de baunilha
250 ml de chantilly

porção: 4 pessoas
dificuldade: fácil
preço: econômico

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s