As panquecas da Marília


massa

Marília Betarello Rocha mostra texto bonito e estilo elegante no livro onde resgata receitas antigas

Diante da gigantesca oferta de comida pronta, em geral de boa qualidade,  satisfazendo paladares diversos e com  preços que atendem a todos os bolsos, vai escasseando o número de pessoas, mulheres especialmente, que se dedicam a preparar a comida da família. O que era uma prática usual há 50 anos, hoje é exceção. O crescimento do contingente feminino que saiu a trabalhar fora nas últimas décadas apagou a cozinha como lugar de encontro, conversa, troca de ideias, reprodução de receitas e, principalmente,  espaço de criatividade. Com esse movimento, que a muitas soou libertador, foram deletadas do acervo gastronômico um grande número de receitas que tinham autoria familiar.
Mas há exceções, algumas encantadoras, personificadas por gente que não só aprecia cozinhar enquanto exercício de generosidade em relação ao outro, como  gosta de resgatar cardápios que ficaram associados à memória de um clã, ou de dois clãs, que é o caso de Marília Bettarello Rocha. Ela buscou nas suas recordações de criança as iguarias produzidas por sua avó  Adelaide Tambelini Betarello, e nas suas memórias recentes de jovem os pratos valorizados pela sogra Isalete Carraro Rocha, ambas já falecidas. De Isalete me lembro bem, pois ela costumava ir à nossa casa quando  adolescente, para estudar com minha irmã Sandra. Era educada, respeitosa, assertiva; e já demonstrava naquela época pendores para produzir delícias como sequilhos e pães de queijo.
Marília tem texto bonito, elegante, pautado pela correção linguística e por um estilo que integra  plasticidade, imagens frescas, emoção evocativa de momentos de preciosa cumplicidade com o marido, Marcelo; também de carinho de neta, filha, irmã; de admiração de nora ; de reverência pelo saber dos imigrantes italianos que faziam  da mesa extensão  de seus lugares de origem. Com cuidado e delicadeza ela foi retirando de cadernos e da tradição oral receitas que reproduziu para compartilhar com seus queridos.  E as reuniu num livro que de artesanal só tem o adjetivo. Ficou lindo, e eu sugiro a ela que procure uma editora, pois tem tudo para agradar a quem acredita, como Mia Couto, citado no prefácio saboroso, que “cozinhar é um modo de amar os outros.”
Os capítulos têm títulos como Almoço de domingo (para introduzir a polenta), Os preferidos (referência a dois bolos, de nozes e ameixas),Suas mãos (com receita de doce de laranja baiana ralada), Inesquecível (lembrança de cheiros), Delícia de Natal (outra receita imperdível, por rara, de brevidade), Mãos perfeitas (homenagem à mãe), Tarde ensolarada, que já é uma crônica com fortes acentos líricos, narrando de forma terna a presença de crianças numa cozinha alegre que permitia participação com criatividade. São mais de vinte delícias testadas que me desafiaram. Com certeza vou experimentar todas e comecei com esta que hoje trago aos leitores, e faz parte do capítulo Reinventando o básico. Nele a autora diz assim: “Começo de vida de casados, eu não trabalhava. Era hora do almoço e eu queria impressionar o marido. Não tinha quase nada em casa, pouca coisa na geladeira, pouca coisa nos armários. E foi quando eu descobri as panquecas. De massa fácil e leve, combinavam com tudo. Doces ou salgadas, com recheio ou sem. Caíam perfeitamente bem naqueles momentos  em que parecia que não dava tempo de cozinhar mais nada, que o arroz e feijão de todo dia já pareciam sem graça. Depois veio a técnica de inventar recheios.(…) Até hoje inventamos recheios. E na falta de pão ou de cardápio diferente que queiramos fazer, bastam dois ovos, leite e farinha para começar o banquete.”
Tem razão Marília Betarello Rocha. As panquecas estão sempre em alta graças à sua capacidade de se renovar, incorporando novos ingredientes. Exatamente por isso elas surpreendem em qualquer mesa, nos quatro cantos do mundo, e mesmo depois de séculos em cartaz. Sua origem é antiquíssima e é provável que tenham por ancestrais o pão indiano Chapati. De registro escrito, passam a fazer parte da história através de Apicius, o cozinheiro romano que se celebrizou ao reunir no primeiro livro de culinária do mundo, o De re coquinaria, as receitas preferidas dos imperadores mas também as do povo. Na publicação  aparece algo muito semelhante às panquecas tais e quais as  conhecemos, feitas com leite, água, ovos e farinha. As de Marília, como as minhas, dispensam a água e se fazem assim. Quebram-se os ovos numa tigelinha para ver se estão frescos. Colocam-se no copo do liquidificador  ovos,  leite,  óleo, farinha, sal ou açúcar (dependendo do recheio salgado ou doce). Bate-se bem. Unta-se uma frigideira (se for de revestimento tefal, melhor o resultado), deixa-se aquecer, despeja-se uma concha pequena da mistura e espera-se fritar dos dois lados. Reservam-se  os discos num prato e recheia-se  a gosto. As desta página levaram frango desfiado, foram cobertas  com molho de tomates e polvilhadas com queijo.
INGREDIENTES
Massa
 2 ovos
 1 xícara de leite
 1 xícara de farinha
 1 colher (sopa) de óleo
Recheio
 1 peito de frango
 2 tomates maduros
 1 cebola média em cubinhos
 2 dentes de alho
 2 colheres de salsinha picada
 2 colheres de requeijão cremoso
 Sal e pimenta a gosto
porção: 12
dificuldade: fácil
preço: econômico
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