Pudim de chocolate e arroz


 Hernán Cortez conta que uma xícara de infusão de sementes de kakawa permitia aos nativos caminhar por todo um dia sem cansaço Popol Vuh é nome de livro religioso do povo maia, por séculos habitante da península do Yucatan, no México, sendo dizimado pelos espanhóis depois do descobrimento. A obra é considerada similar ao Gênesis da cultura judaica; ambas falam sobre criação do mundo. Segundo a mitologia maia, atribui-se a descoberta do cacau aos deuses. Na lenda, a cabeça do herói Hun-Hunahpú, decapitado pelos senhores de xibalba, região do inferno, estava pendurada em uma árvore seca que milagrosamente começou a dar frutos depois que Deus, vendo uma jovem encostada ao tronco, cuspiu em sua mão e a fecundou. É por isso que o povo maia usava cacau como bebida nas festas de casamento; e também colocava sementes do fruto na viagem para o além que todos os humanos empreendem um dia. Alimento sagrado, estava associado à vida e à morte.    Outra lenda, esta asteca, apresenta um dos muitos deuses cultuados, Quetzalcoatl, roubando uma árvore de cacau dos filhos do Sol, para presentear seus amigos da Terra. Essa história, conhecida dos europeus desde o início da colonização, influenciou o botânico sueco Carolus Linnaeus, que classificou a planta e a nomeou Theobroma cacao, junção das palavras gregas Theo (Deus) e broma (alimento dos deuses). Desde sempre se soube que a infusão das sementes de cacau em água fervente conferia grande força a quem a consumisse. Hernán Cortez, um dos mais cruéis conquistadores enviados à América Central, reponsável pela conquista do que hoje é o México depois da destruição do império de Montezuma, escreveu em 1519 ao rei de seu país, Carlos V, que “uma única xícara de chá de cacau permite a um homem caminhar um dia inteiro sem se alimentar de mais nada.”   Mas para que o extraordinário cacau se transformasse no chocalate tal e qual o conhecenos hoje, foi necessário esperar pela primeira pequena fábrica que processou as sementes transformando-as em barras. Criada pelo francês Émile Menier em 1870, melhorou a qualidade do produto já existente e reduziu seu preço de custo, conseguindo um grande efeito: democratizar o consumo antes restrito aos ricos. No final do século XX o chocolate havia chegado aos quatro cantos do planeta. Os últimos a se renderem à delícia foram os chineses.    No mundo todo ele já aparece hoje como tradição em festividades populares. Se é dia das Mães, dos Namorados, das Bruxas, do Professor, Natal, entre outros, lá está ele. No México, faz parte do dia dos Mortos, que o povo celebra de forma sui generis quando confrontado com os demais. O chocolate hoje está presente em toda parte, sob formatos diversos e emblemáticos. Mas é na Páscoa, na configuração de ovos dos mais diferentes tamanhos, que ele ganha extrema visibilidade, sendo consumido pelos brasileiros de todas as classes, de todos os recantos, de todas as idades. Já é raro que uma criança fique sem ganhar pelo menos um pequeno ovo no domingo pascal. Seja simples ou recheado, ele será a primeira alegria do dia para os pequenos, que às vezes acham que é o coelho quem os traz para suas casas.   O uso do ovo como símbolo da festa cristã existe desde o Primeiro Concílio de Niceia, em 325. Faz muito tempo portanto que presentear com ovos na Páscoa representa reafirmar o desejo de recomeçar uma vida mais próxima dos ideais cristãos. Se por alguns séculos pintaram-se nas cascas de ovos cozidos imagens e símbolos cristãos, no Medievo eles passaram a ser confecionados em ouro e cravejados com pedras preciosas: viraram joias.   Por sua rica história, seus mistérios e seu sabor, o chocolate chegou ao século XX chamando a atenção dos artistas, inspirando diversos livros e versões cinematográficas. Em 1964, Roald Dahl publicou um título infantil, A Fantástica Fábrica de Chocolate, e duas adaptações foram feitas para as telas de cinema, uma em 1971; outra em 2005. Em ambas, um menino é convidado para visitar a tal fábrica, onde vive muitas peripécias. O bonito Chocolate, romance escrito por Joanne Harris em 1999, também ganhou a tela grande no ano seguinte, tendo como protagonistas Juliette Binoche, Judi Dench e Alfred Molina. Trata-se da saga de uma mãe solteira e sua filha de seis anos que se mudam para uma cidade rural francesa conservadora, onde abrem loja de chocolates, atraindo depois de alguns percalços os moradores para seus produtos. Há também a ficção da mexicana Laura Esquivel, Como água para chocolate, alusão à expressão típica daquele país. Para que o chocolate derreta é preciso que a água esteja em ebulição; então, se a pe ssoa está ‘como água para [fazer] chocolate’ significa que está fervendo, de raiva ou de outra emoção. O livro inspirou o filme de título homônimo (1992) dirigido por Alfonso Arau. De memória cito ainda Teia de Chocolate, A Selva Nua e Morango e Chocolate. Na telinha, fez enorme sucesso a novela Chocolate com pimenta, escrita por Walcir Carrasco. Mas nenhuma lista do tipo ficaria completa se não fosse citado Jorge Amado, escritor baiano que nasceu em meio a plantações de cacau e transpôs para três livros, Terras do sem-fim, Cacau e Gabriela, cravo e canela um universo muito particular que tem como pano de fundo as roças de cacau do sul da Bahia.   A receita de hoje responde à pergunta inevitável no pós-Páscoa: o que fazer com as sobras de chocolate? A proposta desta página é um pudim que mistura arroz e chocolate. Pode parecer um tanto inusitado, mas fica ótimo, especialmente se você gosta de arroz doce. Cozinhe uma xícara (chá) de arroz em água até que ele fique bem macio. Estando os grãos bem cozidos, vá agregando leite aos poucos para ser absorvido devagar. Não coloque açúcar; junte os pedaços de chocolate e mexa sem parar até que estejam dissolvidos completamente. Numa tigela bata as gemas com o creme de leite e reúna ao arroz. Prepare a calda de caramelo aquecendo o açúcar em duas colheres (sopa) de água. Quando dourar, junte o restante de água, mexendo até amolecer. Caramelize seis tigelinhas refratárias e despeje em cada uma a mistura de arroz. Leve ao forno por vinte minutos ou até firmar. Deixe esfriar bem e desenforme no pratinho de servir. Decore a gosto.     INGREDIENTES    100 gramas de arroz  1 litro de leite  100 gramas de chocolate meio amargo picado  3 gemas  100 ml de creme de leite fresco  1 colher (chá) de essência de baunilha   Para o caramelo    170 gramas de açúcar refinado  4 colheres (sopa) de água   porção:6 pessoas dificuldade: fácil preço: econômico (Foto: Dirceu Garcia / Comércio da Franca)

Hernán Cortez conta que uma xícara de infusão de sementes de kakawa permitia aos nativos caminhar por todo um dia sem cansaço (Foto: Dirceu Garcia / Comércio da Franca)

Popol Vuh é nome de livro religioso do povo maia, por séculos habitante da península do Yucatan, no México, sendo dizimado pelos espanhóis depois do descobrimento. A obra é considerada similar ao Gênesis da cultura judaica; ambas falam sobre criação do mundo. Segundo a mitologia maia, atribui-se a descoberta do cacau aos deuses. Na lenda, a cabeça do herói Hun-Hunahpú, decapitado pelos senhores de xibalba, região do inferno, estava pendurada em uma árvore seca que milagrosamente começou a dar frutos depois que Deus, vendo uma jovem encostada ao tronco, cuspiu em sua mão e a fecundou. É por isso que o povo maia usava cacau como bebida nas festas de casamento; e também colocava sementes do fruto na viagem para o além que todos os humanos empreendem um dia. Alimento sagrado, estava associado à vida e à morte.

Outra lenda, esta asteca, apresenta um dos muitos deuses cultuados, Quetzalcoatl, roubando uma árvore de cacau dos filhos do Sol, para presentear seus amigos da Terra. Essa história, conhecida dos europeus desde o início da colonização, influenciou o botânico sueco Carolus Linnaeus, que classificou a planta e a nomeou Theobroma cacao, junção das palavras gregas Theo (Deus) e broma (alimento dos deuses). Desde sempre se soube que a infusão das sementes de cacau em água fervente conferia grande força a quem a consumisse. Hernán Cortez, um dos mais cruéis conquistadores enviados à América Central, reponsável pela conquista do que hoje é o México depois da destruição do império de Montezuma, escreveu em 1519 ao rei de seu país, Carlos V, que “uma única xícara de chá de cacau permite a um homem caminhar um dia inteiro sem se alimentar de mais nada.”

Mas para que o extraordinário cacau se transformasse no chocalate tal e qual o conhecenos hoje, foi necessário esperar pela primeira pequena fábrica que processou as sementes transformando-as em barras. Criada pelo francês Émile Menier em 1870, melhorou a qualidade do produto já existente e reduziu seu preço de custo, conseguindo um grande efeito: democratizar o consumo antes restrito aos ricos. No final do século XX o chocolate havia chegado aos quatro cantos do planeta. Os últimos a se renderem à delícia foram os chineses.

No mundo todo ele já aparece hoje como tradição em festividades populares. Se é dia das Mães, dos Namorados, das Bruxas, do Professor, Natal, entre outros, lá está ele. No México, faz parte do dia dos Mortos, que o povo celebra de forma sui generis quando confrontado com os demais. O chocolate hoje está presente em toda parte, sob formatos diversos e emblemáticos. Mas é na Páscoa, na configuração de ovos dos mais diferentes tamanhos, que ele ganha extrema visibilidade, sendo consumido pelos brasileiros de todas as classes, de todos os recantos, de todas as idades. Já é raro que uma criança fique sem ganhar pelo menos um pequeno ovo no domingo pascal. Seja simples ou recheado, ele será a primeira alegria do dia para os pequenos, que às vezes acham que é o coelho quem os traz para suas casas.

O uso do ovo como símbolo da festa cristã existe desde o Primeiro Concílio de Niceia, em 325. Faz muito tempo portanto que presentear com ovos na Páscoa representa reafirmar o desejo de recomeçar uma vida mais próxima dos ideais cristãos. Se por alguns séculos pintaram-se nas cascas de ovos cozidos imagens e símbolos cristãos, no Medievo eles passaram a ser confecionados em ouro e cravejados com pedras preciosas: viraram joias.

Por sua rica história, seus mistérios e seu sabor, o chocolate chegou ao século XX chamando a atenção dos artistas, inspirando diversos livros e versões cinematográficas. Em 1964, Roald Dahl publicou um título infantil, A Fantástica Fábrica de Chocolate, e duas adaptações foram feitas para as telas de cinema, uma em 1971; outra em 2005. Em ambas, um menino é convidado para visitar a tal fábrica, onde vive muitas peripécias. O bonito Chocolate, romance escrito por Joanne Harris em 1999, também ganhou a tela grande no ano seguinte, tendo como protagonistas Juliette Binoche, Judi Dench e Alfred Molina. Trata-se da saga de uma mãe solteira e sua filha de seis anos que se mudam para uma cidade rural francesa conservadora, onde abrem loja de chocolates, atraindo depois de alguns percalços os moradores para seus produtos. Há também a ficção da mexicana Laura Esquivel, Como água para chocolate, alusão à expressão típica daquele país. Para que o chocolate derreta é preciso que a água esteja em ebulição; então, se a pe
ssoa está ‘como água para [fazer] chocolate’ significa que está fervendo, de raiva ou de outra emoção. O livro inspirou o filme de título homônimo (1992) dirigido por Alfonso Arau. De memória cito ainda Teia de Chocolate, A Selva Nua e Morango e Chocolate. Na telinha, fez enorme sucesso a novela Chocolate com pimenta, escrita por Walcir Carrasco. Mas nenhuma lista do tipo ficaria completa se não fosse citado Jorge Amado, escritor baiano que nasceu em meio a plantações de cacau e transpôs para três livros, Terras do sem-fim, Cacau e Gabriela, cravo e canela um universo muito particular que tem como pano de fundo as roças de cacau do sul da Bahia.

A receita de hoje responde à pergunta inevitável no pós-Páscoa: o que fazer com as sobras de chocolate? A proposta desta página é um pudim que mistura arroz e chocolate. Pode parecer um tanto inusitado, mas fica ótimo, especialmente se você gosta de arroz doce. Cozinhe uma xícara (chá) de arroz em água até que ele fique bem macio. Estando os grãos bem cozidos, vá agregando leite aos poucos para ser absorvido devagar. Não coloque açúcar; junte os pedaços de chocolate e mexa sem parar até que estejam dissolvidos completamente. Numa tigela bata as gemas com o creme de leite e reúna ao arroz. Prepare a calda de caramelo aquecendo o açúcar em duas colheres (sopa) de água. Quando dourar, junte o restante de água, mexendo até amolecer. Caramelize seis tigelinhas refratárias e despeje em cada uma a mistura de arroz. Leve ao forno por vinte minutos ou até firmar. Deixe esfriar bem e desenforme no pratinho de servir. Decore a gosto.

INGREDIENTES

100 gramas de arroz
1 litro de leite
100 gramas de chocolate meio amargo picado
3 gemas
100 ml de creme de leite fresco
1 colher (chá) de essência de baunilha

Para o caramelo

170 gramas de açúcar refinado
4 colheres (sopa) de água

porção:6 pessoas
dificuldade: fácil
preço: econômico

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