Arca de Noé


Um dia, na sua casa em Piracicaba, não aguentando mais o barulho da rua, a poluição, a péssima comida, ela e o marido resolveram arriscar tudo

Um dia, na sua casa em Piracicaba, não aguentando mais o barulho da rua, a poluição, a péssima comida, ela e o marido resolveram arriscar tudo

Sempre me considerei uma pessoa de sorte, mas ultimamente ando sortuda além da conta. A possibilidade de conhecer pessoas diferentes com projetos de vida que parecem lenda tem me feito sonhar com um mundo possível. Estou tão otimista com a vida que chego a ficar zonza. Semana passada lhes contei sobre a visita ao rancho do Sr. Ocílio, essa semana conto-lhes sobre um projeto ainda mais corajoso. Laura Prada tinha uma vida normal, dessas de trabalho, casa, marido, gravidez. Um dia, na sua pequena casa lá em Piracicaba, não aguentando mais o barulho da rua, a poluição dos caminhões, a péssima comida, ela e o marido resolveram arriscar tudo, tudo mesmo.
Acharam e compraram um pedaço de terra onde só nascia capim rabo de burro, compraram um trailer velho, chamaram-no de casa, encanaram uma bica de água para perto deles, improvisaram umas placas de energia solar, adquiriram uma velha geladeira a gás. Pronto, tinham uma casa. E se mudaram para o meio do nada com um bebê de três meses.
O início foi tenebroso porque o solo estava totalmente degradado, mas aos poucos, foram conseguindo fazer com que ele se lembrasse de sua capacidade produtiva. Laura se comunicou com seus vizinhos e viveu da troca de produtos por muito tempo, aliás, até hoje é forte elo entre eles. No seu sítio, ela não tem criações porque as recebe em troca de hortaliças, grãos e verduras.
Já se passaram dez anos. O sítio hoje é um grande produtor de orgânicos, é uma empresa, a EcosSistemas. Possuem espécies que nunca vimos, como a beterraba arco íris, cenouras azuis… Mas o melhor: Laura é produtora de sementes criolas. Essa é a denominação para a semente que está limpa de agrotóxicos e adubos químicos. Tem polinização aberta, não é um híbrido que não se presta ao replantio. As sementes híbridas comercializadas hoje em dia vêm com tanto agrotóxico que não se pode manuseá-las com as mãos. É irônico, mas elas não são um alimento.
Laura enfrenta um outro problema: não consegue comprar equipamentos da agricultura verde no Brasil (celeiro do mundo) – ela os importa da Holanda, inclusive técnicas e estudos sobre a agricultura familiar vem daquele país. Seu marido é um especialista em energias renováveis, graduado em agricultura familiar mundo afora.
Realizaram seu maior sonho: criar suas três filhas em meio ao trigo orgânico que doura o sítio. A família continua trocando com os proprietários da região, ela mantém um convívio do Slow Food e são praticamente autossustentáveis. Eles vivem, alimentam a família e vendem o excedente aos clientes bacanas, tudo isso sem degradar nadinha do meio ambiente: ao contrário, cavaram uma vala funda e grande em curva de nível no sítio e, como prêmio, tal qual uma Fênix viram surgir a mata nativa em volta do seu sítio. O que nos leva a pensar, por quanto tempo dorme a natureza ou seria ela capaz de ressuscitação?
Sei que muitos torcem o nariz para coisas como essa. Laura não importa a quase ninguém, muito menos ao poder público, porque ela não gera dinheiro, esse tipo de vida inviabiliza o poder, leia-se: corrupção.
A maioria a chama de doidona mesmo, olham para ela como se olha alguém que não se leva a sério, sonhadora, gente café com leite. Engano puro, Laura sabe bem o que está fazendo, ela sabe o que quase ninguém sabe: que 70% da produção agrícola do país advém da agricultura familiar. Ela também sabe que a concentração de dinheiro na mão de uma meia dúzia propicia o lobby que atua no coração e mente dos que fazem as leis no país. Mas a Laura tem paciência, está acostumada a adversidades, gente assim não costuma temer.
Ela sabe também que a gralha azul é o pássaro responsável pelo plantio das Araucárias, ele pega as castanhas e as esconde para comer depois, mas ele acaba se esquecendo onde as enterrou e elas brotam e sobem aos céus. Assim acabaram por dominar toda uma região do país e são uma coisa linda de se ver.
Laura, te amo, que Deus abençoe você e sua família e seu belo sítio Gralha Azul.  (PS. O sítio Gralha Azul agenda visitas individuais ou em grupos).
DICA DA SEMANA
Fermento
Definitivamente fermento não é coisa para crianças. Eita coisa difícil de se lidar, vejo ainda um outro adicional de dificuldade: normalmente as receitas não contemplam as nossas temperaturas. E tem também a questão água.
A fermentação é o estágio durante o qual a massa é reservada para que as células de levedura produzam dióxido de carbono, que se difunde pelos bolsões de ar, enchendo-os.
Para saber se a fermentação chegou ao final verifica-se o volume da massa, é verdade. Estará pronta quando estiver quase dobrado de volume. Mas há outro truque, quando pressionada com o dedo, a massa plenamente fermentada reterá a impressão e não voltará à forma original. Isso ocorre porque o glúten atingiu seu apogeu da elasticidade. Os fermentos biológicos não são difíceis de se trabalhar com eles. Mas pode-se ter alguns cuidados para os melhores resultados.
A água deve estar morna, mas, jamais quente, o excesso do calor matará o fermento. Outra boa dica é se misturar o mel ao fermento, isso o ativará ainda mais. A proporção é de uma colher de sopa de mel para cada tablete de fermento. Misture tudo muito bem: fermento, água (uma xícara e meia), farinha de trigo (uma xícara) e o mel. Lembra-se que essas proporções são para um tablete de fermento. E deixe descansar tampado por 30 minutos antes de usar.
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