Ovos mexidos


O ovo, alimento presente em todas as culturas, mobiliza cozinheiros ao redor do mundo e também inspira artistas enquanto desenho, pelo conteúdo e como símbolo (Foto: Dirceu Garcia/Comércio da Franca)

O ovo, alimento presente em todas as culturas, mobiliza cozinheiros ao redor do mundo e também inspira artistas enquanto desenho, pelo conteúdo e como símbolo (Foto: Dirceu Garcia/Comércio da Franca)

“A necessidade é a mãe da invenção”, disse em A República o filósofo grego Platão, nascido no ano 427 a C. Tem-se por certo que conhecia a fábula contada por seu compatriota Esopo, três séculos antes. Nela um abutre sedento avista um jarro com bem pouca água no seu interior. Desesperado, tenta de várias formas alcançar com o bico essa água que dormita no fundo da vasilha. Depois de esforços vãos, tem um insight: reúne todas as pedrinhas possíveis e as joga, uma a uma, no jarro. A água sobe então até uma altura em que pode ser bebida.

Desde a mesa onde colocar alimentos e o banco onde se sentar, do palito de fósforo à lâmpada, passando obviamente pela roda, são milhares os exemplos que nos ocorrem para ilustrar a necessidade como motor da invenção. Aliás, temos no Brasil um ditado engraçado e singular a respeito: “É a precisão que faz o sapo pular.” Nunca ouvi falar de adágio similar em outra língua, mas deve existir.

Entretanto, às vezes, especialmente quando se sente confortável, o homem cria coisas dispensáveis. Tornam-se já incontáveis os itens das inutilidades domésticas. A elas vem se somar agora uma invenção, no mercado a partir de novembro, que torna possível quebrar a gema de um ovo dentro de sua casca. A ideia é do designer Geraint Krumpe, da Y Line Product . Um dispositivo de movimentos de rotação quebra a gema por meio de força centrífuga, a que lança um corpo rotativo para longe do centro de rotação. A engenhoca se chama Golden Goose e no site onde é notícia seu inventor diz que “sem dúvida, ela permite que usuários pulem algumas etapas da bagunça que envolve preparar ovos mexidos tradicionais.”

Eu me pergunto que bagunça haverá em quebrar ovos dentro de uma tigela. Pessoalmente acho um exercício estético apreciar um ovo imediatamente antes de o quebrar. Aquela inteireza, a cor, a forma- tudo me encanta e quase sempre me leva a repensar em nossa imensa ficcionista Clarice Lispector, que escreveu em estado de transe um dos mais enigmáticos textos curtos da literatura universal- O ovo e a galinha, que começa assim: “ Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantém no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há milênios.” Pura metafísica, que o crítico Miguel Wisnik considerou tratado estético sobre o olhar e outro crítico, Benedito Nunes, analisou como profunda meditação.

Quebrado o ovo, outro espetáculo é olhar para a gema amarela e brilhante, perfeitamente estabilizada no meio da clara. E, de novo, outro grande nome de nossas letras, a mineira Adélia Prado, vem me poetar de forma só aparentemente singela no magnífico Louvação para uma cor: “Ao meio-dia as abelhas, o doce ferrão e o mel/Os ovos todos e seu núcleo, o óvulo./ Este dentro, o minúsculo/ (…) O amarelo engendra.”

Não poderia deixar de reproduzir, à altura do caminho que este texto tomou, os versos que abrem O ovo de galinha, do célebre pernambucano João Cabral de Mello Neto, pois eles costumam emergir de minha memória mais profunda quando vejo ovos mesmo longe da cozinha, e desde que fora da embalagem: ‘ Ao olho mostra integridade/ de uma coisa num bloco, um ovo./ Numa só matéria unitária,/ maciçamente ovo, num todo”.

Inspirador para os criam com palavras, o ovo. Aos que mourejam na cozinha, também, pois é versátil, delicado, complexo e mágico. Se me perguntassem o que não pode faltar numa despensa, eu citaria sem pestanejar: ovo. Ele salva a pátria de muitas maneiras.

Os ovos mexidos da foto, eu os criei para meu neto João, ao perceber que ele achava os tradicionais muito secos e sempre que os experimentava retirava da boca pedacinhos de clara crestada. Pensei no molho holandês, fiz uns cálculos e acabei acertando na cremosidade. São poucos ingredientes para uma delícia que fica perfeita não só no café da manhã. Pode ser servida como lanche, sobre torradas, num dia mais frio.

O começo é pela escolha dos utensílios. Você vai precisar de uma panela pequena para ferver a água e uma tigela de inox que se adeque à boca da panela. É isso mesmo que você pensou: a mistura de ovos será cozida em banho-maria. Quebre os ovos na tigela e se quiser pense em Clarice, em Adélia, em João Cabral, ou na primeira vez que, em criança, você viu uma galinha, um ovo. Se os ovos estão frescos, com as gemas bem centradas, comece o procedimento. Junte o creme de leite e bata com garfo até ficar bem homogêneo. Tempere com sal e volte a misturar bem. Ajuste a tigela sobre a panela com água fervente, conforme vê na foto, e mexa com colher, sem parar, até a mistura espessar. Quando isso acontecer, desligue a chama e polvilhe pimenta-do-reino. Coloque os ovos mexidos em cumbuquinhas ou copinhos.

Aliás, até em xícaras de café ficam bonitos. Já experimentei recolocá-los nas cascas dos ovos e o visual surpreendeu. Mas para isso há que se ter habilidade e paciência a fim de quebrar apenas uma pontinha deles. A apresentação de um prato conta pontos ao olhar de quem vai consumi-lo. E também é decisiva numa foto. Por isso, como eu tinha um restinho de caviar num pote, coloquei -o em cima buscando um efeito bonito. A combinação se mostrou ótima ao paladar, mas não é primordial. Salsa bem picadinha também funciona.

Ingredientes

4 ovos
1/2 xícara (chá) de creme de leite
Sal
Pimenta-do-reino

porção: 2
dificuldade: média
preço: econômica

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