Peras grelhadas


“Nós vos oferecemos o que temos de melhor: nossas peras, nosso vinho e nossos corações”, dizia o administrador de Reims aos reis consagrados na célebre catedral (Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca)

“Nós vos oferecemos o que temos de melhor: nossas peras, nosso vinho e nossos corações”, dizia o administrador de Reims aos reis consagrados na célebre catedral (Foto: Dirceu Garcia/ Comércio da Franca)

Corre no FB uma história didática sobre o olhar e os equívocos de julgamentos. Um pai ordenou a quatro filhos que fossem a um lugar distante de onde moravam e observassem uma árvore erguida ao lado de determinada propriedade de todos conhecida. Obedecendo à ordem, os irmãos não foram todos juntos; partiram em tempos diversos ao longo de um ano. Quando voltaram, fizeram quatro relatos distintos. A árvore era seca e feia, disse o primeiro. Tinha galhos cheios de folhas verdes, afirmou o segundo. Estava carregada de frutos duros que não apeteciam, descreveu o terceiro. Tinha frutos corados que faziam a boca salivar, relatou o quarto. Como se vê, havia sobre a mesma árvore percepções diferentes. O que esse pai quis dizer aos filhos é que deveriam ter cuidado na observação das coisas ao seu redor, para que não se deixassem enganar pela aparência. E que embora a árvore variasse segundo as estações do ano, mantinha sua identidade. Ah, sim, tratava-se de uma pereira.

Desconfio de que a história tenha uma matriz francesa, pois nesta língua há centenas de histórias, adágios e lendas envolvendo peras. Uma delas é bem aristocrática e se refere ao tempo em que os reis de França eram sagrados em Reims. Na famosa catedral, que tem lindos vitrais azuis de Chagal, e é considerada das mais belas de toda a Europa, foram coroados “com a bênção de Deus”, Luís X, Filipe V, Carlos IV, Luís XVI, Charles X e outros. Nestas solenidades caríssimas, que chegaram a despertar a ira do povo, os soberanos recebiam do chefe administrativo, junto com a chave da cidade, uma pera e uma taça de champanhe, com as seguintes palavras: “nós vos oferecemos o que temos de melhor: nossos vinhos, nossas peras e nossos corações.”

Reims tornou-se célebre pela espetacular catedral mas também por ser a mais importante cidade da região conhecida como Champagne, onde se concentram os endereços das célebres caves de Ruinart, Taittinger, Pommery, Veuve Clicquot e Martel. Além das vinhas, a excelência das peras leva ao lugar milhares de turistas, convidados não só a uma taça de champanhe, como a um cálice de poiré, um tipo de aguardente de peras. Eu, que sempre tive curiosidade de saber como colocavam uma pera inteira dentro de garrafas da bebida, fui informada de que os produtores o fazem da seguinte maneira: introduzem os frutos, mal eles se formam, dentro das garrafas então amarradas aos galhos da árvore. As peras crescem lá dentro e quando amadurecem, as garrafas são retiradas e o espaço preenchido com a aguardente chamada Williamine. O nome deriva do tipo de pera utilizada na elaboração – a Williams. Neste capítulo das espécies, é bom parar por aqui, pois se eu fosse citar todas, esta página talvez não desse conta: são apenas 2029. Contrariando a percepção do pai da história com que abri este texto, as espécies produzem frutos em três estações : Williams no verão; Concorde no outono, Passe-crassene no inverno. E todas florescem na primavera, o que representa mais uma das belezas da Champagne: é coisa mui bela de se ver um pereiral em flor. Proust dixit.

Quanto à nossa receita, é dessas raras que, apropriadas a quem faz regime, não é insossa nem carente de beleza. Experimente essas peras grelhadas acompanhadas de fatia de ricota e regadas por calda: elas podem ficar prontas em vinte minutos. Aprendi com a Rita Lobo, no livro recém-lançado Pitadas da Rita.

Prepare a calda: numa panela junte açúcar e água e misture com o dedo indicador até dissolver. A Rita diz que é dedo mesmo, pois colher faz o açúcar subir pelas laterais da panela e queimar na hora de ir ao fogo. Leve ao fogo médio e deixe cozinhar por cerca de dez minutos, consistência de calda rala. Desligue o fogo. Numa tábua corte a ricota em quatro rodelas de 3 cm de espessura. Corte também as peras no sentido do comprimento, mantendo o cabinho, e salpique açúcar sobre elas. Leve ao fogo uma frigideira antiaderente e pincele com manteiga. Coloque as metades de peras e grelhe dos dois lados, por quatro minutos ou até que fiquem douradas. Coloque uma fatia de ricota no centro de cada prato. Apoie nela duas metades de pera. Regue com a calda. Enfeite com as folhinhas de manjericão.

Ingredientes

400 gramas de ricota fresca
4 peras pequenas e maduras
¾ de xícara de açúcar
¾ de xícara de água
Manteiga para pincelar
Folhas de manjericão para decorar.

porção: 4
dificuldade: fácil
preço: econômico

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s