O passado a acalentar o presente


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Pensei que meu corpo não fosse aguentar. É estranho quando a nítida vontade da cabeça não é seguida pelo corpo, não há o que fazer. Logo eu que tenho a convicção de que se deve criar filhos que prestem ao mundo, não aos pais ou à família. Mas deixar minha filha de 15 anos embarcar sozinha para a Alemanha e por lá se virar por sua conta e risco foi demais pra mim. O abraço de tchau amoleceu todas as fibras de meu corpo, senti a energia se esvair em redemoinhos, como se alguém puxasse a tampa de um tanque repleto de água. As mil recomendações, já ditas aos milhares, simplesmente se desapareceram juntamente com a minha consciência. E eu fui um monte de carne inútil a seguir o reflexo dela no teto do belo novo terminal do Aeroporto de Guarulhos. Ela estava de laranja e vermelho, foi fácil identificar o reflexo dela: primeiro o raio-x, depois a imigração, depois ver o reflexo dela se reduzir ao seu completo desaparecimento rumo ao portão 41 para embarcar.

E eu, marionete do medo, me ajeitei o melhor que pude e saí, pensando nas inúmeras possibilidades de ter que guardar aquele momento como último de nós, coisas de mãe, quem o é sabe bem do que falo.

Como sempre, uma noite que seja em São Paulo é o suficiente pra eu fazer meus planos. Chegamos ao hotel, graças a Deus, daria tempo pra descansar, dormir e usar a ajuda de um Tylenol. Acordei e não senti nenhuma melhora, mas ficar na cama?! Levantei-me, me arrumei mais ou menos, meu marido, sem mostrar qualquer contrariedade, insistia para que ficássemos desta vez. Hesitei, olhei para a tela do iPad dele, vi o jogador Robben dando tudo, aos 34 anos, para derrubar a impenetrável Costa Rica… Qual o quê?!

Escolhi voltar ao Café Gardênia, um simpático restaurante em Pinheiros, palco de muitos passeios entre mim e minha amiga, bem verdade que nem sempre foram dias felizes, mas me lembro da comida de lá nos acalentar. Bem, agora ele é só Gardênia. Deixou a cara de café de lado, ficou mais elegante, mas a praça dos Omaguás continua um charme, a livraria Fnac a frente continua sendo uma promessa de esticadinha no passeio, enfim, só faltava ver como a comida estava.

Gostei de cara da sugestão do dia, me pareceu bastante criativa: uma paella com lagostim e mexilhões e, no lugar do tradicional arroz Bomba, o macarrão cabelo de anjo. Eles espalham o macarrão todo quebrado numa wok, jogam um saboroso caldo de peixe bem quente e os frutos do mar – por fim, uma leve gratinada. Estava realmente delicioso e levíssimo. Mas notei que o prato mais pedido foi uma paleta de cordeiro servida inteira numa tábua, deve servir confortavelmente umas três pessoas. A aparência, sabor e textura não deixam dúvidas. Por fim, a conta: de fato, para os padrões paulistanos o restaurante continua com bom preço.

Às 4h27 da manhã meu telefone toca, a ligação não completa, busco o tenebroso, mas útil aplicativo que segue todos os voos em tempo real. Leio: voo 505 arrived at 4h11. Como ela está na Alemanha, é certo que em 16 minutos ela tivesse feito imigração e tivesse pego as malas. Sim, era ela, agora rumo a estação de trens. Recebo as fotos dos belos trens. Mas antes de continuar viagem há tempo para um breve passeio por Munique, juntamente com uma menina inglesa da idade dela. Ambas viajando sozinhas, alegres por carregarem, pela primeira vez sobre os ombros quase infantis, o levíssimo fardo de uma vida tão feliz…

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