M. Pollan e a volta à cozinha


Valor está muito além do sacrifício

Valor está muito além do sacrifício

Já que vivo da comida, já que esse é um dos meus assuntos preferidos, fiquei feliz em saber que uma das mesas mais disputadas, que um dos autores mais aplaudidos na Flip/2014 (Feira Literária de Paraty) foi justamente a mesa com um escritor que, dentre outros assuntos, possui cerca de 15 livros publicados sobre a comida, o cozinhar, sobre a cadeia produtiva, agricultura, etc.

Michael Pollan descreve em seus livros tudo aquilo que, particularmente, venero e sonho em colocar em prática – uma hora vai! Seus textos são deliciosos, embora tenha formação de jornalista e não de literato, mas, enfim, ele tem um estilo leve e muitas vezes se comunica por frases bem humoradas, de efeito, bem ao estilo do próprio homenageado da Flip desse ano: Millôr Fernandes.

São dele, por exemplo:

“Não coma nada que a sua avó não reconheceria como comida”.
“Comida de verdade não entra pela janela do carro”.
“Comidas industrializáveis não são compartilháveis”.
“Coma, mas pouco, e principalmente plantas”.

Suas assertivas, em tom de brincadeiras, têm tantas informações fundamentadas que cada centímetro delas já daria o que falar. Quando ele se refere a comida que sua avó reconheceria, ele fala da cozinha que praticávamos há cerca de 70 anos. Nada de industrialização. Além disso, a frase revela a cultura que nos envolve. Por exemplo, Pollan se deliciou com a moqueca brasileira, inclusive provou uma vegetariana. Embora tenha gostado bastante de feijoada, amou mesmo a moqueca. Achou linda aquela panela de pedra com todo aquele caldo, sabor e aroma. Então, alguém da plateia lhe perguntou se a avó dele reconheceria nossa moqueca como sendo comida de verdade.

Ele surpreendeu e respondeu que a dele não, mas a do jovem brasileiro sim. E isso é de suma importância! Quando a nossa avó reconhece algo como comida significa que, além de sê-lo verdadeiramente, o prato está imerso em cultura, na nossa cultura.

Outro ponto alto de sua palestra foi quando tratou das refeições familiares feitas na mesa. Ele diz: “A mesa é um local onde se exercita a democracia, a criança, o jovem aprende a ouvir, a falar, e a discutir sem odiar e sem ofender demais o seu oponente”.

Além disso, quando todos estão saboreando as mesmas comidas, uma moqueca, por exemplo, todos entram na mesma sintonia, na mesma energia. O que não acontece quando cada um engole uma substância alimentícia industrializada. É assim mesmo que deveríamos distinguir a comida das substâncias que também alimentam.

“Cozinhar é um importante ato político”. Acho que nossas avós jamais pensaram nisso! Essa é sem dúvida sua melhor frase e pede grande reflexão de nossa parte. Hoje, cozinhar a própria comida é uma ferramenta de rebeldia porque é a única maneira de controle da cadeia alimentar, de escolha do alimento, de dizer não ao sistema da monocultura. Enfim, voltarei ao Michael Pollan. Aliás, gostaria de começar e terminar por ele. Ainda nem li seu livro, lançado na Flip. E sim, eu sei: dá trabalho cozinhar, é mais fácil pedir, mas o valor está muito além do sacrifício.

DICA DA SEMANA

Batatas

Frituras demais são prejudiciais, todos já ouvimos isso. Mas de vez em quando tudo bem. Melhor se fizermos nós mesmos as batatinhas fritas. Elas têm alguns segredinhos para ficarem com aquela cara profissional e sequinhas.

Primeiro, a qualidade da batata. A batata comum chamada ágata ou inglesa não serve, embora a utilizemos de forma indiscriminada. Elas têm muita água e ficam melhores assadas ou cozidas.

A batata perfeita para fritar, cortar palito, é a asterix. É uma batata de casca avermelhada de formato oval e longo. Aqui na cidade encontra-se com facilidade, normalmente num cantinho ao lado da ágata. A asterix é mais seca e muito mais saborosa.

Para aquele aspecto profissional você vai precisar de um termômetro. Primeiro frita-se por imersão no óleo a 130º por 3 minutos, escorre-se e frita-se novamente em óleo a 160º até dourar.

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