Mil-folhas de batata


batata

O nome deriva do corte, feito com faca bem afiada e muito cuidado para não destacar por completo as rodelas; coradas, são arrematadas por molho de manteiga e bacon (Foto: Dirceu Garcia/Comércio da Franca)

A batata continua sendo a quarta maior cultura do mundo, e graças ao seu poder nutritivo poderia resolver o problema da fome no planeta. Suas origens estão num dos pontos mais altos da Terra, na Cordilheira dos Andes, imediações do lago Titicaca, fronteira da Bolívia com o Peru. Os Incas, civilização que deslumbrou pela sofisticação de seus conhecimentos os espanhóis chegados à América do Sul no começo dos 1500, já a cultivavam por volta de 900 aC. E mostraram, aos brancos invasores, que dominavam uma técnica de preservação que consistia em colocar os tubérculos junto à neve e, depois, ao sol. A batata, que os conquistadores europeus (e não unicamente Cristóvão Colombo, como conta uma lenda tenaz) levaram para a Espanha sob a denominação de patata, teve uma história interessante em solo europeu.

Foi das regiões andaluzas, ao sul da Espanha, que ela partiu a conquistar o resto da Europa, ganhando a Itália, sob o nome de taratouffi, ou seja, pequena trufa, embora ainda não se soubesse bem o que fazer com ela. Depois chegou à França, sob denominação mais botânica que culinária de trufole, e era destinada à alimentação dos porcos. Tentou-se fazer pão com ela, mas por falta de gluten o resultado não foi lá nenhuma Brastemp. Faltava uma boa receita para consumo humano, ninguém a possuía, por muito tempo não houve quem se interessasse em criar alguma. Mas um farmacêutico que também era versado em nutrição, chamado Parmentier, resolveu experimentá-las cozidas e, entusiasmado pelo seu valor nutritivo , colocou em prática um plano a que hoje chamaríamos de ‘publicitário’. Fez plantar em Neuilly, onde morava, um campo de batatas e contratou soldados para que guardassem o local onde se encontravam os ‘preciosos tubérculos.’ Isso despertou enorme atenção e as pessoas passaram a considerar a possibilidade de que aquele alimento tão bem guardado seria de muito valor. Se antes, só as flores despertavam interesse, sendo usadas como motivos de louças e enfeites de chapéus, com Parmentier elas chegaram à mesa. Ganharam tal notoriedade que logo havia na França muitas áreas cultivadas e quando irrompeu a Revolução Francesa, foram elas que garantiram a sobrevivência de milhares de pessoas. No período Bonaparte, foi levada à Alemanha, onde se tornou o ícone da gastronomia germânica que se mantém até hoje.

Minha neta Júlia passou quatro semanas numa pequena cidade alemã, Augsburg, próxima de Munique. Adorou a experiência, já quer voltar. Para aperfeiçoar a língua; para reencontrar os amigos; para intensificar sua vivência com pessoas de outros países que encontrou na casa onde ficou. Mas não para comer batatas. Vegetariana radical, nos preocupamos com sua dieta em país estrangeiro. Mas tínhamos esperança de que as batatas alemãs, parte essencial de todas as mesas, a conquistassem, fornecendo-lhe parte de nutrientes necessários ao seu organismo de adolescente. Isso porém não aconteceu; ela chegou com cinco quilos a menos, e olhem que é bem magra. A ‘mãe’ da família que a hospedou parecia não ter nenhuma habilidade culinária. Nem criatividade, dada a repetição de uma mesma receita com batatas, tornada pesada pela adição de molhos densos de carne. E, cá pra nós, o melhor dos pratos enjoa, se for oferecido todos os dias.

E, no entanto, se alguém se interessar, poderá varar o ano sem esgotar os itens de um menu onde a batata seja o ingrediente principal. Comprei há algum tempo um pequeno livro que traz 365 sugestões para aproveitar o tubérculo. Uma delas, que me agradou pelo sabor e pela apresentação, é esta Mil-folhas que ilustra a página. Poucos ingredientes e um toque sofisticado fazem da batata assada prato principal se ao seu lado colocarmos uma salada verde, ou um acompanhamento para carne ou peixe assados. Eu gostei muito do resultado. O ideal é usar batatas grandes, uma para cada pessoa.

Lave bem com escovinha, em água corrente, pois a pele deve estar limpíssima. Seque-as e, usando uma faca afiada, corte fatias bem fininhas, sem contudo destacá-las da base. Na ilustração do passo a passo é possível ver como. Prepare o molho com manteiga, azeite de oliva e as folhas de um galhinho de alecrim (equivalentes a 1 colher de sobremesa) e espalhe metade por cima das batatas. Coloque-as numa assadeira e dentro desta despeje duas xícaras (chá) de água. Cubra a assadeira com papel alumínio e leve ao forno preaquecido a 220 graus. Deixe por quarenta minutos e, depois deste tempo, retire o papel e teste com a ponta de um garfo ou com palitos para ver se estão tenras. Caso ainda ofereçam resistência, deixe mais dez minutos cobertas e então retire o papel. Quando estiverem coradas é sinal de que chegaram ao ponto certo. Retire a assadeira do forno, coloque uma batata em cada prato e salpique em cima o bacon frito e esmigalhado. Para obtê-lo, disponha papel-toalha num refratário e, em cima dele, as fatias fininhas. Leve ao micro-ondas por três minutos ou até que fiquem bem torradas. Retire, espere esfriar e quebre-os com as próprias mãos ou martelo de carne.

Sirva as batatas com o molho de manteiga que sobrou.

Ingredientes

4 batatas grandes
10 fatias finas de bacon
2 raminhos de alecrim (1 para enfeitar)
2 colheres (sopa) de manteiga amolecida
1 colher (sobremesa) de azeite de oliva
Sal a gosto

porção: 4
dificuldade: médio
preço: econômico

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