Passeio na Fazenda Morro Azul II


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Onde estavam os porcos? A fazenda tem um charco e lá havia alguns, mas a maioria estava embrenhada pelo mato

Visitar uma fazenda de criação de animais para abate é uma coisa normalmente chocante. Não raro, escutamos os vegetarianos dizerem que só comemos carne porque nunca visitamos os locais de abate. O que pode ser bem verdade – um amigo de minha filha vive dizendo a ela que a ignorância é uma bênção, e eu sigo assim.
Mas há esperança – e não falo de romances, falo da verdade, da realidade. Retomo a última crônica no momento em que terminávamos nosso café na fazenda Santo Antônio da Águas Claras e partíamos para o campo. O senhor João, proprietário da fazenda, é um dos inúmeros criadores de animais caipiras que, mais tarde, na idade certa, são vendidos para o frigorífico Cerrado Carnes. A sua criação é de Porco Montau, que tem origem pantaneira. A propósito: enquanto caminhávamos pelo mato, o chef preparava um daqueles para nós.

Mas onde estavam os porcos? Por todo o lado. A fazenda tem um charco e lá tinham alguns, mas a maioria estava embrenhada literalmente pelo mato. Há uma cerca eletrificada que fecha quase toda a área, que é grande e eles desaparecem. Tanto que o sr. João, a contragosto, teve que criar o hábito de dar um pouco de milho aos bichos no cair da tarde: assim ele consegue vê-los e controlar as ninhadas. Imaginem, ele não os alimenta! Eles comem no mato e do mato. No início, o sr. João começou a plantar palmeiras que dão coquinhos, que eles amam, mas percebeu que eles, os porcos, é que plantavam muito mais ao espalharem as sementes dos coquinhos nas fezes. À medida que o rebanho cresce, cresce a disseminação de plantas, que geram mais alimentos e mais mudas.

Alguém pergunta sobre pragas, também não há combate. Há uma planta chamada óleo pardo que ajuda no combate do carrapato, eles próprios a comem quando precisam e também vão espalhando-a por lá. Alguém perguntou sobre mortalidade, ele disse que cerca de 20% dos animais morrem ou desaparecem, ou são comidos por outros bichos que vivem na mata: lobos, por exemplo. Mas ele constatou que são perdas compensadas, é a seleção natural, em compensação seus bichos vão ficando cada vez melhores.

Ele criou uma maternidade para as porcas parirem, mas o projeto fracassou, elas gostam é do mato mesmo. Fomos a procura de um ninho, fiquei besta, nem imaginava que porco fazia ninho. Achamos um, mas os porquinhos não estavam por lá. De repente começaram a aparecer, um mais um e outros. Algumas porcas grandes com leitõezinhos que não chegavam ao tamanho da mão. O sr. João não sabe quantos são. Ele tem uma ideia pelo número de porcas que tem.

Alguém perguntou sobre a intromissão do homem naquele meio ambiente, da criação querida ir para o abate. Sr. João foi enfático: “sou também um animal, e tal como eles tenho direto a esse pedaço de chão, eles não são melhores que eu. Só não posso pisar aqui como rei, sou apenas parte do sistema. Mas se piso esse chão como um animal, que sou, posso tudo quanto pode outro animal, nem mais, nem menos”. Ficamos todos estupefatos, a declaração dele tanto serve ao mais radical defensor dos animais, quanto ao carnívoro inveterado, estávamos diante do fiel da balança.

Sei que parece coisa infantil, tipo filme da sessão da tarde, mas ver aqueles animais soltos, as porcas dando de mamar aos filhotinhos, um homem que acredita na natureza como a melhor forma de existência, foi emoção genuína. A questão é justamente essa: não é uma apologia é uma realidade aplicada que tem se mostrado viável porque alguém acreditou simplesmente que a Natureza pode ser melhor que o homem.

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