Um pão chamado Catarina


País de dimensões continentais, o Brasil apresenta grande variedade de pães em suas diferentes regiões; o catarina é conhecido no Sul e pode levar recheios doces ou salgados (Foto: Dirceu Garcia/Comércio da Franca)

País de dimensões continentais, o Brasil apresenta grande variedade de pães em suas diferentes regiões; o catarina é conhecido no Sul e pode levar recheios doces ou salgados (Foto: Dirceu Garcia/Comércio da Franca)

“Drão, os meninos são todos sãos/ Os pecados são todos meus/ Deus sabe a minha confissão/ Não há o que perdoar/ Por isso mesmo é que há/ De haver mais compaixão/ Quem poderá fazer/ Aquele amor morrer/ Se o amor é como um grão/ Morre nasce trigo/ Vive morre pão / Drão, Drão”.

Uma boniteza esta música do Gilberto Gil, Drão, que tanta gente já cantou, além de Caetano Veloso, de Ivete Sangalo e do próprio Gil. Tão linda quanto Cio da Terra, de Milton Nascimento e Chico Buarque de Hollanda: “ Debulhar o trigo/ Recolher cada bago do trigo/ Forjar no trigo o milagre do pão/ E se fartar de pão // Afagar a terra/ Conhecer os desejos da terra/ Cio da terra propícia estação/ E fecundar o chão…” Grandes sensibilidades, esses nossos poetas.

Pão, alimento associado à essência da vida, presente na poesia de todos o tempos, de tal forma é essencial no nosso dia-a-dia que já nem dá mais para pensar como seria viver sem ele. E embora pareça que sempre tenha existido da forma como o consumimos hoje, sua história milenar mostra grande evolução desde que o homem começou a cultivar trigo. Primeiros agricultores, estes nossos antepassados cozinhavam uma espécie de mingau, de grãos moídos grosseiramente, sobre pedras grandes e achatadas, conseguindo assim um pão áspero e duro, provavelmente amargo. A descoberta de que alimentos poderiam ser assados foi contribuição imensa ao desenvolvimento de técnicas mais aprimoradas e receitas diferentes.

Entre os antigos, os egípcios foram os mais criativos quanto a variedades de forma e conteúdo. Inventaram pães de diversos tamanhos e desenhos; aromatizados com ervas como cânfora; adoçados com mel; coloridos com ovos; enfeitados com sementes de papoula e gergelim. O pão era alimento básico para os egípcios e se refinava à medida em que se subia a pirâmide social.

Do Egito, ganhou a Europa através dos romanos que colocaram a mão na massa, depois de terem aprimorado as técnicas de moagem dos grãos, mistura de ingredientes e sova eficiente. Foram eles que descobriram que algumas ervas levedavam a massa, fazendo-a crescer. Com o objetivo de saciar a fome do povo de forma mais prática e eficiente, os césares instruíram para que fossem formadas associações de padeiros imbuídas do espírito de ensinar o ofício aos jovens.

Por longos séculos o pão foi escuro, grande e pesado em toda parte. Cortavam-no em fatias individuais, as chamadas côdeas em língua lusitana. O hábito de consumir pães pequenos é relativamente recente. Em nosso país e em Portugal resultou de uma importação francesa, quando a elite resolveu adotar para si um padrão da Belle Époque, o que se traduziu em novas maneiras de se expressar artisticamente, se vestir, se comportar e comer. O pão pequeno, alongado, de miolo branquinho e casca crocante e dourada , a que chamamos francês por lembrar uma baguette, ganhou a preferência dos brasileiros na primeira metade do século XX mas passou a ser conhecido em outros países como pão brasileiro, já que na França não existe este tipo de pãozinho. Alimento de todos os povos, confere personalidade a provérbios que o uso cotidiano não desgasta. Quem nunca comeu um dia o pão que o diabo amassou? Quem nunca atestou que a instrução é o pão do espírito? Quem nunca presenciou o fato de que na mesa onde falta pão todos brigam e ning
uém tem razão? O povo é sábio nas suas formulações verbais.

Em se tratando de Brasil, país de dimensões continentais, não é só o francês que se põe na mesa. A criatividade leva a elaborações preciosas, advindas muitas vezes da imaginação do imigrante que aqui tentava resgatar sabores de sua terra. Como o pão que o leitor vê na foto e se tornou conhecido como “catarina” no sul do Brasil, podendo ter muitos tipos de recheio. O nosso é de salame e queijo.

Comece diluindo o fermento no açúcar. Quando ele estiver líquido, junte o leite morno (quase frio), os ovos batidos, o sal. Vá colocando a farinha aos poucos e mexendo com colher de pau, até a massa se soltar e ficar fácil de ser manuseada. Sove por dez minutos, deixe descansar em tigela coberta e lugar aquecido até dobrar de volume. Enquanto isso, passe o salame pela parte grossa do ralo. Faça o mesmo com o pedaço de muçarela. Reserve ambos. Quando a massa estiver crescida, divida-a em duas partes. Com o rolo, forme dois retângulos de 25x 40 cm. Deixe no meio uma faixa de 13 cm. Nas laterais corte tiras como pode ver nas fotos do passo a passo. Distribua no centro o salame ralado e, sobre ele, metade da muçarela. Trance as tiras, como na ilustração. Coloque os dois pães em forma untada e polvilhada com farinha. Deixe crescer novamente, pincele a gema diluída em um pouquinho de leite, espalhe o restante do queijo ralado. Leve ao forno preaquecido (200º) por 40 minutos ou até que esteja com uma bela cor dourada.

INGREDIENTES

45 gramas de fermento biológico
300 ml de leite
3 ovos
1 colher (sopa) de açúcar
1 colher (sobremesa) de sal
3 colheres (sopa) de manteiga ou margarina sem sal
900 gramas de farinha de trigo
1 gema para pincelar

Recheio
100 gramas de salame
300 gramas de muçarela

porção:2 grandes
dificuldade: média
preço: econômico

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