Comer: um prazer essencial


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Pobres dos playboys e das madames desocupadas… Dia desses me deitei tão cansada, um daqueles dias compridos, 12 horas ininterruptas de pé numa cozinha e, enfim, o contato do corpo cansado com os lençóis limpos e bem esticados – só pode ser benção dos céus pelo descanso merecido. Pode-se dizer: a vida não é isso. No que discordo, para o bem e para o mal, a vida é só isso.

As alegrias fabricadas passam, a alegria do dinheiro, do sucesso profissional, da juventude, da bunda dura… Uma a uma exercem o seu fascínio por um determinado tempo, variando de pessoa para pessoa, mas logo vão embora deixando um rastro de pegadas que não se segue. Ficam as alegrias que são simples, aquelas que, mesmo maltratadas e desprezadas, não nos abandonam. Resta a pergunta: por que é tão difícil sabê-las suficientes?

Comer é uma delas, e sem malabarismo para explicar, sem transcendência para complicar, a comida exerce na boca, melhor dizendo, no olfato ortonasal (responsável por sentirmos o cheiro da comida na boca), uma verdadeira mágica porque eleva o simples sentir um cheiro à experiência da emoção e aos níveis cognitivos do cérebro. Ou seja, aprendemos o gosto e nos emocionamos com ele quando o cheiro da comida, boa demais, chega ao céu da boca. Parafraseando Carlos Alberto Dória: vê-se estrelas no céu da boca.

Pois bem, o galeto caipira do Restaurante Figueira Rubaiyat é sempre bom, mas dessa vez ele estava especial, a focaccia de alecrim é sempre boa, mas quando ela chega bem quente é possível extrair dela uma rústica maciez, lembra um bagles em brancura, mas com potência de um adulto. As batatas suflês são sempre legais, mas às vezes elas parecem mágicas, todas infladas por igual. O atendimento é sempre cordial, mas às vezes a gente se depara com um daqueles garçons conversadores, que confidenciam intimidades da casa que fazem a alegria do cliente, principalmente se ele tem uma xeretice profissional como a minha.

A brigada do Figueira é de 120 funcionários, divididos em três turnos que eles qualificam como: abre, plantão e fecha. E que num sábado, como aquele em que estávamos lá, lotadaço, eles atendem cerca de 1.400 pessoas! Ai que delícia fazer essa conta: com ticket médio de R$ 200 por pessoa, tem-se aí um faturamento de 280 mil no dia. Eu, particularmente, acho que dá mais.

Não sei a quanto tempo o cardápio é o mesmo, o que pode sugerir rotina ou especialização, vai de cada um. Entre os paulistanos ricos deve haver algum tipo de reclamação, mas para quem vai uma vez ou outra é sempre um acontecimento sentar-se embaixo da majestade, A Figueira, e se não resistir, não tem problema, ela está acostumadíssima aos flashes.

DICA DA SEMANA

Leitura

A dica de hoje não é para comer, ou quase não é para comer. É sobre um romance ambientado na gastronomia. O que significa dizer que é antes de tudo um bom romance. Através da gastronomia ele nos conta histórias.

A história da protagonista Hassan se dá através de encontros culinários que são na verdade culturais. O mote da história não poderia ser mais apetitoso: Hassan e sua família, que são indianos, se mudam para os Alpes franceses e lá abrem um restaurante do tipo familiar, de comida indiana, a Maison Dubai. Que tem como vizinha e concorrente justamente um restaurante de comida clássica francesa. A batalha entre eles é muito boa de ler. Eu indico: A viagem de cem passos, de Richard Morais.

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