Mousse de tomate seco


Frutos bem maduros, que não ficam bem numa salada, podem render maravilhosos tomates secos que por sua vez integram a receita de fresca mousse (Foto: Dirceu Garcia/Comércio da Franca)

Frutos bem maduros, que não ficam bem numa salada, podem render maravilhosos tomates secos que por sua vez integram a receita de fresca mousse (Foto: Dirceu Garcia/Comércio da Franca)

Fruta feia é fruta bonita. Essa era a chamada para a reportagem cujo assunto já tinha atraído a minha atenção num canal português, quando li o delicioso texto do publicitário Nizan Guanães a respeito da mesma ideia. Trata-se de projeto recente, desdobramento de proposta que conquistou em novembro passado o prêmio FAZ- Ideias de Origem Portuguesa, da Fundação Calouste Gulbenkian. Sua ganhadora, a lisboeta Isabel Soares, entrevistada pelo New York Times, ocupou não só as páginas do jornal mais influente do mundo, como obteve grande visibilidade na Europa, nos EUA, e agora no Brasil. Na França e em Portugal o modelo apresentado e já em execução nas capitais e outras regiões daqueles países, consiste em aproveitar frutas e legumes considerados feios, embora mantenham suas qualidades nutritivas e de sabor. Ao tomar conhecimento de que a União Europeia, com suas rígidas regras de comercialização, jogava fora 89 milhões de toneladas de alimentos ao ano, Isabel se sensibilizou. Afinal, diante da crise que abala a economia dos países que compõem a UE; da imoralidade que representa qualquer desperdício quando milhares passam por necessidades; e do apelo cada vez mais crescente à valorização do que é natural, tornava-se necessário acenar à opinião pública com outras possibilidades. Ou, o que foi feito de forma direta: uma fruta, uma hortaliça que não correspondam ao tamanho, à cor e ao peso ideais, dentro de um determinado imaginário construído, não podem ser consumidos? Só a beleza pode ser levada à mesa?

Atrás das respostas óbvias que chegavam, emergiam questões mais profundas, nas quais muito mais gente que a esperada começou a pensar. Por que devolver à terra recém-colhidos figos com coloração menos roxa, maçãs com leve depressão na casca, peras cujo cabinho quebrou, pêssegos de tamanho menor, cenouras miúdas, tomates levemente amassados? Por que jogar fora o produto que não corresponde a uma estética que cria padrão questionável, pois muito centrado na aparência, desconsiderando a segurança da origem e as qualidades nutritivas e de sabor? Por que ignorar que junto ao gesto de recusar os frutos há também um desperdício de recursos usados na sua produção como água, solos cultiváveis, energia e tempo de trabalho?

Os impactos dessa proposta já estão se fazendo notar, diz Isabel Soares, à frente da Cooperativa Fruta Feia em Lisboa : “ Aos poucos a população começa a se conscientizar para a problemática do desperdício alimentar e para o fato de que alimentos feios não são lixo, podem ser consumidos com prazer e a um preço muito mais baixo.” Pois é assim que funciona: os cooperados vendem a preço bem menor o que nada valia, sendo inviabilizado antes mesmo do ato de embalagem. Como disse Guanães, Isabel entendeu as mudanças ao seu redor e passou a oferecer a oportunidade de um padrão alternativo de consumo. A qualidade não pode ser julgada pela aparência: este é o mote principal de uma ideia que parece traduzir muito mais que o consumo de produtos alimentícios.

Pensei em tudo isso porque dia desses comprei uns tomates que estavam em promoção exatamente porque não satisfariam a quem os quisesse para uma salada de verão. Mostravam-se bem maduros, bem vermelhos. Custavam menos da metade de seus colegas ainda verdolengos. Comprei dois quilos, para fazer tomates secos. Era uma receita nova, que queria experimentar e deu muito certo. Lavei, cortei ao meio no sentido longitudinal, tirei as sementes e coloquei no escorredor de macarrão. Depois de meia hora despejei uma colher (café) de vinagre em cada pedaço. Polvilhei com uma mistura de 1/2 xícara de açúcar e uma boa pitada de sal. Dispus os pedaços num refratário, com a casca voltada para baixo, e levei ao micro-ondas por 25 minutos, jogando fora a cada 5 minutos a água que se formava. Em seguida, virei as cascas para cima e deixei mais 15 minutos. Assim desidratados, foram levados ao forno comum até secar bem a pele, mas sem deixar queimar. Depois de frio temperei com azeite de oliva, alho picado, pimenta, folha de louro, e coloquei em vidro bem fechado. Achei que ficou ótimo para servir com torradinhas. Tendo sobrado um pouquinho, dias depois fiz uma mousse que surpreendeu. É esta que você vê na foto. Nem ao fogo vai. Basta juntar no copo do liquidificador os tomates, o molho inglês, as rodelinhas de alho, a maionese, o creme de leite e bater durante três minutos. Desligue e junte a gelatina em pó dissolvida em água quente. Volte a bater por um minuto. Coloque em forma untada com óleo e deixe na geladeira por um mínimo de três horas. Desenforme e sirva com salada verde.

INGREDIENTES

200 gramas de tomates secos
½ xícara (chá) de creme de leite
½ xícara (chá) de requeijão
½ xícara (chá) de maionese
4 dentes de alho
1 envelope de gelatina incolor e sem sabor
Sal, orégano, pimenta-do-reino a gosto
2 colheres (sopa) de catchup
1 colher (sopa) de mostarda
2 colheres de cebolinha verde picada finamente

porção: 4
dificuldade: fácil
preço: econômico

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