Crostata Primavera


Há dois pratos italianos chamados crostata. Um é salgado e foi criado na Sardenha; o outro, doce, nasceu nas mesas da Emilia Romanha. Ambos são deliciosos (Foto: Dirceu Garcia/Comércio da Franca)

Há dois pratos italianos chamados crostata. Um é salgado e foi criado na Sardenha; o outro, doce, nasceu nas mesas da Emilia Romanha. Ambos são deliciosos (Foto: Dirceu Garcia/Comércio da Franca)

O primeiro aparece em cardápios como um item de antepasto. Tem sua origem numa ilha, a Sardenha , onde é chamado pane curasau, e faz parte da família dos pães. Mas é um pão de massa finíssima, a lembrar papel onde se escrevem partituras; e de tão crocante, ao ser mastigado faz um barulhinho, ‘como se fosse uma sinfonia’, dizem os sardos. Daí seu outro nome: carta de música. Acho que não há no mundo povo mais vocacionado para poetizar nomes de elaborações culinárias que os italianos. Esta crostata salgada é servida habitualmente com sardela ou outra pasta do gênero.

O segundo vem do norte, da Emilia Romanha, que visitei ano passado em busca de antepassados. Em Loiano, lugarejo já bem próximo da Suíça, vi numa padaria esta torta que daquelas plagas foi exportada para toda a Itália. Hoje é um ícone do país, e não mais de uma região. Estar ali em Loiano no final de outubro me fez antever o que deve ser o inverno naquelas alturas- bem próximo encontra-se o maior observatório da Europa. Então, a Crostata Primavera se justifica em todo seu poder calórico: as temperaturas muito baixas pedem alimentos que aqueçam. E por que o nome da estação amena? É que ela é colorida, contrasta com o cinza da paisagem invernal, quando é mais consumida. O recheio é feito com geleia de frutas frescas – morangos, uvas, framboesas, damascos, pêssegos e tutti quanti se conseguiu reunir no tempo de colheita. Junta-se açúcar, leva-se ao fogo até ganhar ponto. Guardadas em vidros hermeticamente fechados, tornam-se, à proximidade do inverno, o doce ingrediente acolhido pela denominada massa frola.

A crostata, que pode ter também recheio de creme, é uma das iguarias a que chamamos de comfort food, “comida de conforto”. Exibe um quê de avó, de infância, de singeleza, de afeto. Seu aspecto rústico não compromete sua beleza. Pode ser servida a qualquer hora, e faz bem nos momentos onde um tantinho de tristeza vem incomodar a alma. Imagino o peso da paisagem, a nudez das árvores, o vento gelado lá fora, alguma neve que já embranquece os montes ao redor, e dentro das casas o calor produzido pelas achas de madeira na lareira, as janelas bem cerradas, os vasos de barro guardando em seu interior a promessa de flores na próxima estação que vai tardar. Nesse contexto um pedaço de crostata alla marmelada, acompanhada de xícara de chá fumegante, deve representar um momento de acolhimento e prazer.

Não temos invernos rigorosos. Mas se em algum momento a temperatura interna sofrer algum abalo e o ânimo baixar, apele para a crostata. É como um bolinho de chuva, uma sopa quentinha, um mingau de aveia…

Fácil de preparar, faz sucesso e fica bonita, ainda que a experiência passe por mãos pouco habituadas ao fogão. Você não precisa replicar as mães e avós italianas na azáfama de fazer geleias. Existem ótimas marcas no mercado, das quais pode lançar mão. Um creme de laranja ou de limão, desses de caixinha, também cumpre bem o papel.

Comece pela massa quebradiça, a tal frola. Coloque numa tigela grande a farinha, os pedacinhos de manteiga gelada, o açúcar e mexa formando farofa. Faça uma depressão no meio e ali dentro coloque o ovo inteiro e os dois bem batidos. Junte também um cálice de licor (usei Cointreau) e umas gotas de baunilha ( tive a sorte de ganhar um vidro da legítima, que meu amigo Ali trouxe da Tailândia). Mexa com um garfo até que tudo esteja misturado e então amasse. Sove bem, transformando a mistura num todo homogêneo. Embrulhe em plástico ou papel filme e leve à geladeira por uma hora. Isso é necessário para que você consiga manuseá-la depois com facilidade. Enquanto a massa permanece na geladeira, você pode preparar o recheio que deverá ser empregado frio. Isso se resolver usar outro que não a geleia pronta. Valem também goiabada em pasta e marmelada (de marmelo!).

Depois de sessenta minutos, coloque a massa sobre superfície lisa e abra-a em círculo com rolo de macarrão. Unte uma forma de torta com óleo de soja e polvilhe farinha. Forre a forma, reserve as sobras de massa para fazer as tirinhas que formarão o acabamento. Fure com garfo o fundo e as laterais para que não estufem. Espalhe o recheio. Estique novamente o que sobrou de massa e corte tiras com carretilha. Você pode fazer também cordões com os quais montar uma grade sobre o recheio. Nesse quesito vale a criatividade. As mães italianas do interior ainda chamam as crianças para ajudá-las e enrolar bolinhas, formatar corações ou unir anéis com o restinho de massa. Os “enfeites” são colocados de forma harmoniosa sobre a superfície. Leve ao forno preaquecido a 180 graus por meia hora ou até dourar as tiras. Deixe esfriar e salpique um pouquinho de açúcar para cumprir a tradição. Está pronta uma elaboração antiga que não perde atualidade.

INGREDIENTES

300 gramas de farinha de trigo
100 gramas de manteiga gelada
1 xícara (chá) de açúcar
1 cálice de licor de laranja ou limão
1 colher (chá) de raspas de limão siciliano
2 ovos inteiros
1 gema
2 xícara (chá) de recheio

porção:8
dificuldade: fácil
preço: médio

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s