Creme de Beterraba


beterraba

A beterraba permaneceu no ostracismo durante muito tempo; e apenas no século XIX descobriam-se as qualidades nutritivas de suas raízes (Foto: Dirceu Garcia / Comércio da Franca)

Parece que preconceito não é só uma relação entre humanos. Alimentos também sofrem discriminação. Quer um exemplo? Chuchu. Já viu uma renomada receita com este fruto? Não tem; a não ser aquela que o mistura a camarões miúdos e costuma aparecer nos cardápios do litoral. No entanto, é bom, suave, tem cor bonita. Vai bem nas saladas com ovos; batido como abobrinha e refogado; em cubinhos cozidos e temperados com azeite e limão. Talvez porque seja abundante e não demande muitos cuidados, chuchu sobra nas leis que regulam o mercado. O excesso provoca desinteresse. Humanos preferem produtos raros, que por isso são caros.

A beterraba é outra que sofre rejeição e parece não fazer parte dos ingredientes que merecem atenção de chefs. Qualquer passada de olhos por sites, vídeos, programas de culinária em canais de TV, etc, vai nos mostrar batata inglesa, batata baroa, batata doce- as três queridinhas dos cozinheiros nos quatro cantos do mundo. Tomates, favas, cenouras, vagens, pimentões, pepinos, mandioca têm lugar garantido em qualquer lista de compras domésticas ou de restaurante. Se houver uma ascendência italiana em quem detém poder de escolha, não vai faltar berinjela, legume muito presente na gastronomia da Bota. Mas a beterraba, com sua linda cor púrpura e maravilhoso design, onde é mesmo que aparece? Alguma vez nos livros da inovadora Rita Lobo, em quadradinhos arranjados em copinhos enfeitados com azedinha. Tudo bem delicadinho. Só, e mais nada.

É possível que a cultura explique o pouco caso a ela destinado. Com origem pré-histórica, provavelmente no Norte da África e nas costas da Ásia e do Mediterrâneo, da beterraba ancestral comiam-se apenas as folhas. Aparentemente, foram os antigos romanos pobres os primeiros a usar a raiz como alimento. As tribos bárbaras que invadiram e, posteriormente, conquistaram o Império Romano disseminaram o cultivo da beterraba no Norte da Europa. Mesmo assim, não atentaram para as qualidades nutritivas e gustativas da planta, que era destinada à alimentação dos animais domésticos. E aí parece estar o x do problema, da má vontade, do descrédito, do menosprezo: até hoje certos europeus consideram a beterraba “comida de gado”. Tendo em vista que a grande cozinha que dominou o mundo por mais de dois séculos foi a francesa, explica-se porque tão poucos pratos foram criados com este legume.

Como “comida de gente”, as primeiras receitas com beterrabas surgem por volta do segundo século de nossa era, para desaparecem no decorrer da Idade Média. A beterraba volta às mesas no século 16, mas é somente no 19 que ganha alguma relevância. Durante as invasões napoleônicas, quando os ingleses restringiram as importações de cana-de-açúcar, o imperador decretou que a beterraba seria usada como a principal matéria-prima do produto. Foi nessa época que chegou às Américas, tanto a do Norte quanto a do Sul.

De certa forma, Napoleão também contribuiu para a disseminação da beterraba no Brasil. Para evitar a conquista de Portugal pelas tropas napoleônicas, a família real se mudou para a colônia. Isso deu grande impulso ao plantio, por aqui, de várias hortaliças cultivadas na Europa, entre elas a beterraba. Nos dias de hoje, ela começa a ser valorizada por sua grande concentração de betacaroteno cujos efeitos antioxidantes são importantes à saúde.

Para fazer um resgate saboroso e bonito, além de nutritivo, sugiro o creme de beterraba, que é uma versão do borsh russo e representa criação de realce de um povo que teve de inventar jeitos de matar a fome durante as agruras das guerras que enfrentou. O creme em sua origem é saboreado quente, mas pode ser servido frio, neste nosso final de ano de muito calor.

Em uma panela grande aqueça o azeite e frite o alho por um minuto ou até dourar. Adicione a batata, a berinjela e a beterraba. Deixe refogar por três minutos, junte água, tampe a panela e cozinhe por 30 minutos ou até que os legumes estejam macios. Tempere com sal e pimenta. Transfira aos poucos para o liquidificador e bata até obter um creme homogêneo. Reserve. Prepare os bolinhos. Em uma tigela junte os ingredientes até formar mistura homogênea. Com pequenas porções de massa modele na palma da mão os bolinhos. Aqueça a sopa até ferver e junte-os. Tire do fogo e sirva.

INGREDIENTES

Para o creme
4 colheres (sopa) de azeite
3 dentes de alho picados
4 batatas sem casca cortadas em pedaços
1 berinjela sem casca cortada em pedaços
2 beterrabas pequenas cortadas em pedaços
2 litros de água
Sal e pimenta-do-reino a gosto

Para os bolinhos
5 fatias finas de bacon frito e picado
4 colheres (chá) de salsinha picada
3 colheres (chá) de cebolinha verde picada
½ xícara (chá) de ricota fresca esmigalhada
3 colheres (sopa) de farinha de trigo
1 gema

porção: 4
dificuldade: fácil
preço: econômico

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