Um bolo de Natal


Preparar para a família e os amigos um bolo de massa fofinha, perfumado a baunilha e limão, com pedacinhos de frutas secas e cristalizadas - eis um prazer que tenho (Foto: Dirceu Garcia - Comércio da Franca)

Preparar para a família e os amigos um bolo de massa fofinha, perfumado a baunilha e limão, com pedacinhos de frutas secas e cristalizadas – eis um prazer que tenho (Foto: Dirceu Garcia – Comércio da Franca)

Entramos na semana de Natal. Não sinto mais o delicioso aroma que se desprendia da calda do doce de figo quando ele estava sendo finalizado em tacho de cobre. E me pergunto se alguém ainda se dá ao trabalho de produzir essa iguaria, antes tão associada ao período. Figueiras carregadas no final de novembro, lá se iam as mulheres de antanho a limpar os frutos verdes, atividade das mais custosas, das quais as mãos saíam às vezes também lavradas. Hoje o doce é encontrado em vários lugares e na doceria Valdete são artesanais, de excelente qualidade.

Também acredito que tenha sido lançado às calendas gregas o mutirão que ia para as roças fazer pamonha, ô coisa difícil: apanhar as espigas de madrugada, descascá-las, limpá-las, retirar aqueles cabelos de entre as fileiras de grãos, ralar, coar, temperar, colocar nos pacotinhos feitos um a um, manualmente, depois lançá-los nas enormes panelas cheias de água fervente. Esperar cozinhar, retirar com espumadeira, deixar esfriar e aí repartir entre todos os que haviam participado da empreitada dos dezembros. Nossa, impensável hoje em dia. Quando compro as pamonhas perfeitas da Padaria Estrela, lembro os sacrifícios dos antepassados e dou vivas ao progresso. Não sei como fazem, mas as pamonhas da padaria estão todos os dias na vitrine, independente da estação do ano, à espera dos felizardos consumidores. Boas demais.

E havia o desafio do panetone. Quase ninguém possuía, pelo menos aqui no interior, a fôrma apropriada. Então, as donas-de-casa improvisavam ou mandavam fazer nas funilarias algo parecido. Ficavam gostosos, mas bem aquém da textura leve e do sabor peculiar dos que chegaram depois e lotaram mercearias e supermercados.

Apesar da força do consumo que induz à compra de produtos industrializados, bons e de preços acessíves, permanece em muitos o prazer de preparar algo com suas próprias mãos para ofertar à família, fazer um presente. Particularmente gosto muito de produzir algo com minhas próprias mãos para meus familiares e amigos. Este bolo de Natal é o meu preferido, pois sua simplicidade está bem dentro do espírito natalino, tal e qual o concebo. E me traz uma emoção infantil bater a massa com cuidado, pensando em natais que se foram, nos que permaneceram, nos que talvez ainda alcance- e aí entramos no espaço da esperança. Enquanto olho o movimento das pás da batedeira amalgamando manteiga, açúcar e ovos, resgato misturas de cenas antigas, quando o Natal era época que custava a chegar, se dele falávamos no começo do ano letivo. No Natal gostaria tanto de ganhar isso, no Natal gostaria muito que acontecesse aquilo, ah, como o Natal demora a chegar, e assim por diante, desejos sempre adiados mas nunca amortecidos. Porque a beleza do Natal sempre é a esperança.

E o que dizer de mergulhar frutas secas na massa? Isso costumava me despertar a curiosidade sobre a constância do uso delas nas festas de fim de ano. Até que produzindo uma matéria para o Clubinho desta semana descobri que antigos romanos trocavam essas frutas como presente no começo do inverno, de forma que o hábito persistiu, vindo a acumular mais um sentido com o cristianismo.

Por fim, tem o perfume desta massa quando está assando. As moléculas de baunilha (se verdadeira, indescritível), as da casca ralada do limão, as do rum onde as frutas secas foram mergulhadas, essa combinação de aromas intensos, tudo enfim me leva a pensar em outras especiarias, aquelas oferecidas ao Menino em sua gruta. Quando retiro o bolo do forno e, depois de morno, o desenformo e cubro com açúcar de confeiteiro, o momento é de doçura sem fim, com direito a ouvir bater os sinos de Belém.

E por isso o trago aqui, neste domingo, para que talvez inspire o leitor a fazê-lo. Comece mergulhando as frutas cristalizadas, nozes e uvas passas no rum. Se não tiver essa bebida à mão, use cachaça de boa qualidade. Enquanto as frutas se embriagam, bata manteiga com açúcar e vá juntando ovos um a um, continuando a bater até obter um creme clarinho. Junte o creme de leite e misture, sem bater. Numa tigela grande peneire duas vezes farinha, fermento e pitada de sal. Vá juntando aos poucos os ingredientes secos ao creme e misturando para homogeneizar bem. Agregue os perfumes: raspas de limão e xarope de baunilha. Na falta do xarope, valem as gotas compradas no supermercado. Volte a misturar. Por fim, escorra as frutas numa peneirinha e reúna-as à massa, com delicadeza, para que se espalhem bem. Unte com manteiga uma forma de pudim. Polvilhe-a com farinha de trigo. Despeje a massa, acerte com colher, dê umas batidinhas com a forma sobre a bancada da pia, para eliminar o ar que se forma e impedir que o bolo fique desnivelado. Leve ao forno já aquecido a 180 º e deixe assar por cerca de 40 minutos. Espete um palito no fim do prazo e se ele sair seco, a massa está assada. Caso contrário, deixe mais alguns minutos. Retire do forno, deixe amornar e desenforme. Cubra com açúcar de confeiteiro ou decore a gosto.

INGREDIENTES

4 ovos
1 xícara (chá) de manteiga sem sal
1 xícara (chá) de açúcar
1 lata de creme de leite sem gelar
2 ½ xícaras (chá) de farinha de trigo
2 colheres (sopa) de fermento em pó
1 pitada de sal
1 xícara (chá) de frutas cristalizadas
2colheres (sopa) de uvas passas
1 colher (chá) de raspas de limão
1 colher (chá) de xarope de baunilha
2 colheres (sopa) de nozes picadas
1 xícara (chá) de rum ou aguardente

porção: 8
dificuldade: fácil
preço: econômico

Anúncios

Um pensamento sobre “Um bolo de Natal

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s