Sopa de Milho com Cambuquira


sopa

Chegam com junho as noites mais frescas, algumas vezes frias, a pedir pratos quentes. Então, não posso começar este mês sem uma receita que alimente e aqueça; conforte e restaure, sobretudo inspire uma lembrança boa, especialmente da infância, porque é nessa fase que somos apresentados às sopas.

Escolho a sopa de milho com cambuquira por motivos sentimentais e prazerosos. Escrevi aqui, no finalzinho de meu texto sobre o arroz com abobrinha e farofa crocante de pão italiano, que gostaria de encontrar cambuquira para preparar um refogado tal e qual minha mãe fazia, cortando no fundo do quintal ramas de abobreira que se alastravam. Jamais poderia imaginar que dias depois uma leitora me fizesse chegar às mãos dois enormes molhos desses brotos bem tenros, cortados ainda com flores e algumas abobrinhas minúsculas. Que surpresa, quanta alegria podem proporcionar gestos generosos. Obrigada, Rita, você vem se juntar a outras amigas que, coincidência e providência, estão listadas no meu coração com o mesmo nome. As Ritas que fazem parte do grupo de pessoas a quem estimo são todas muito humanas e acolhedoras. Adorei as cambuquiras e com elas fiz ensopados, omeletes e esta sopa boa para tomar em fim de outono, começo de inverno.

Certas lembranças parecem pertencer a um tempo comum, o das crianças que apreciavam cardápio que parecia ser do gosto de brasileiros de todas as classes sociais. Eu, que me achava totalmente solitária nesta lembrança, descubro em outras pessoas o mesmo gosto. Tanto Rita, professora de Artes que me acompanha por aqui e a quem agradeci por telefone, quanto José Hugo Celidônio, que virou chef e hoje tem programa num canal de TV e um blog bem bolado, seguem comigo neste prazer gastronômico. Rita diz que a minha lembrança resgatou as dela, menina que também gostava da verdura ( e hoje planta árvores, lindo isso!); José Hugo, que sua família servia a sopa de milho com ramos de cambuquira sempre que a temperatura caía na serra fluminense. Adulto, já gostando de cozinhar, procurou nas feiras e varejões a iguaria, e não a encontrando mais, fez a opção pela couve. Também deve ficar gostoso, pois esta verdura entra em outras preparações do tipo, inclusive o caldo verde.

Acredito que a sopa, cuja foto ilustra a página, seja item de menu antiquíssimo, com dois produtos estreitamente relacionados à nossa colonização. Sabemos que os entrantes, aqueles valentes homens que desbravaram sertões e fundaram cidades, plantavam roças de milho por onde passavam, na expectativa de comer espigas na volta, quando entre os pés já adultos e embonecados, alastravam-se as aboboreiras ao mesmo tempo semeadas. A importância deste grão, ingrediente que entra em alta nesta estação de festas juninas, foi enorme na alimentação dos primeiros colonizadores.

De forma poética, Cora Coralina tratou o tema no seu longo e belo Poema do Milho, onde diz assim: “Quando os deuses da Hélade corriam pelos bosques/ coroados de rosas e de espigas/ quando os hebreus iam em longas caravanas/ buscar na terra do Egito o trigo dos faraós,/ quando Rute respigava cantando nas searas de Booz/ e Jesus abençoava os trigais maduros/ eu era apenas o bró nativo das tabas ameríndias”.

A poeta alude ao grão que surgiu em solo centro-americano há aproximadamente sete mil anos. Dali difundiu-se pelas Américas do Norte e do Sul, onde as principais civilizações pré-colombianas, como astecas, maias e incas, não só dele se alimentavam, como tinham com ele uma relação de cunho religioso. Os incas possuíam até uma bebida sagrada chamada chicha, que era tomada em honra a Mama Sara, ou Mãe do Milho. A deusa asteca Chicone Conatl era representada com espigas de milho em ambas as mãos. Aproximadamente um século depois de sua chegada à Europa, o uso do milho já havia se espalhado por todo o continente, pela Ásia e pela África. Hoje o consumo abrange praticamente todas as partes do mundo.

A sopa de milho com cambuquira é fácil de preparar, tem sabor único e deve ser apreciada com umas gotinhas de limão. Comece com o refogado de cambuquira, se tiver a sorte de encontrá-la. É necessário retirar as partes mais ásperas, lavar bem e deixar mergulhadas em água com vinagre por quinze minutos, para higienizar. Feito isso, lave de novo em água corrente, pique em pedaços de dez centímetros e refogue no azeite, com pitada mínima de sal e pimenta a gosto. Reserve. Rale as espigas de milho ou passe os grãos pelo liquidificador. Coe (se precisar, junte um pouco de água para facilitar) e reserve. Numa panela refogue duas colheres (sopa) de cebola picadinha em duas colheres (sopa) de azeite. Junte o caldo de milho, o leite, o caldo de galinha e mexa sem parar até começar a engrossar. Acrescente a cambuquira que foi deixada à parte, espere ferver mais dois minutos e sirva junto com um gomo de limão- o que confere um aroma e sabor muito especiais. Se for usar couve, basta agregá-la crua ao caldo bem quente.

INGREDIENTES:
4 espigas grandes de milho verde
½ cubinho de caldo de galinha
1 xícara de leite
2 colheres (sopa) de azeite
1 limão
2 xícaras (chá) de cambuquira cozida ou 2 xícaras (chá) de couve picada

porção: 4 pessoas
dificuldade: fácil
preço: econômico

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