Bolinhos de Chuva


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Doce invenção cuja origem se perde no tempo, mas com certeza tem autoria brasileira, o bolinho de chuva salpicado de açúcar nos transporta, a todos que já crescemos, para outra dimensão, repleta de descobertas e sonhos – a infância, esta que tem a ver com cronologia, embora esteja permanentemente dentro de nós. Se adormecida, mínima coisa basta para despertá-la e refazê-la: trinado de ave, folha caída juncando o chão, fileira de formigas trocando cumprimentos, uma maria-fedida nas costas da mão, vagalume iridescente em noite de outono, festa junina, cricri de grilo, plantinha boba e rasteira chapinhada de florzinhas brancas, ninhos de passarinho, bolo de aniversário, caderno pautado com letra irregular, certos desenhos infantis numa página em branco. Ou uma cartolina grande com dúzia de lápis de cor ao lado, mais livros, livros à mancheia, expressão poética que só é bela no léxico de Castro Alves: “ O livro caindo n’alma/ É germe- que faz a palma,/ É chuva- que faz o mar.”

E no caso dos espaços lúdicos, que incluam especialmente livros de Monteiro Lobato. O prolífico, o encantatório, o maior dos criadores de tipos que até hoje inspiram grandes escritores e seduzem crianças de todas as idades. Foi numa das maravilhosas histórias de Monteiro Lobato que o quitute ganhou nome literário, pois até então o povo o chamava de quero-quero, mata-fome, vira-cambota- pois se a massa estiver perfeita e a temperatura for ideal, ao ser frito ele doura do lado de baixo, fica mais leve, infla e imediatamente vira-se sozinho, exibindo num triz a face ainda clara e crua, que logo também fica cozida. Depois de pronto, lembra outra delícia, o sonho. Mas este é feito com fermento biológico, seu tamanho é maior, ele costuma ser recheado com doce de leite ou geleia.

Mas quem teria batizado como bolinho de chuva a iguaria brasileira senão a velha Tia Nastácia, que o fritava às dúzias para Emília, Narizinho e Pedrinho, na grande cozinha do Sítio do Pica-Pau Amarelo, em noites onde se contavam histórias verdadeiras de tão verossímeis? Tão prodigiosos eram o sabor, a textura, o aroma e o puro desenho esférico, que o MInotauro, tendo degustado uma bacia cheinha deles, até se esqueceu da antiga mania de comer gente e virou um ser doméstico amigo de toda a família de Dona Benta.

Iguaria que surgiu ainda no Brasil colonial do século XVlll, época em que o trigo era caro, escasso e oriundo só da metrópole, o bolinho apareceu tímido, com perfil de comida de pobre, feita com ovos, coalhada, fubá, mais açúcar e um tantinho de queijo ralado, pelas mãos escravas que os fritavam em banha quente, nos grandes tachos dos fogões à lenha.

Sua simplicidade e seu sabor foram decisivos para conquistar crianças e adultos, homens e mulheres, passando de uma geração a outra com a mesma condição de comida de afetos, a que hoje passou a ser chamada comfort food: algo que traz em si a capacidade de alimentar o corpo e aquecer o coração, como as sopas e os mingaus. E embora não tombado, o ex- vira-cambota é patrimônio nacional, faz parte da verdadeira culinária brasileira que foi produto da interação entre a Casa Grande e a Senzala. Especialidade muito nossa, não se encontra fácil além fronteiras.

Saboreado em todas as estações do ano, fica-se por conhecer ao certo por qual razão o vincular à chuva. Talvez porque os serões de Dona Benta se tornassem ainda mais acolhedores quando chovia e a turma dentro de casa escalava montanhas e remava em rios, era apresentada a Pégasus e Prometeu, também singrava mares com Ulisses, em busca de sua Ítaca. Mas sempre de olho nos bolinhos que chegavam da cozinha.

As férias chegaram e preparar bolinhos de chuva no inverno é uma boa forma de oferecer às crianças um prato brasileiro que se tornou clássico gastronômico da infância.

Em uma tigela média, bata as gemas com o açúcar até obter um creme esbranquiçado. Acrescente o leite, o requeijão, o queijo ralado e o sal. Continue batendo e adicione alternadamente farinha de trigo e amido de milho aos poucos, para não formar grumos. Caso isso aconteça, passe tudo por peneira. A massa precisa ficar bem lisinha. Acrescente o fermento em pó e mexa para incorporar por completo. Bata as claras em neve e junte delicadamente à mistura, de cima para baixo, até que tudo fique homogêneo. O ponto da massa é o que se vê no terceiro passo: esponjoso e não líquido.

Em uma panela pequena aqueça o óleo. Com duas colheres de sobremesa, forme os bolinhos e pingue a massa no óleo quente. A temperatura é superimportante: a gordura precisa estar aquecida o suficiente para não encharcar, mas não em demasia para evitar queimar por fora e não cozinhar por dentro. Frite aos poucos, quatro de cada vez. Se a temperatura estiver ideal e a massa no ponto, eles virarão sozinhos na panela. Caso contrário, use uma espumadeira para virá-los e depois retirá-los assim que dourarem. Coloque sobre toalha de papel, a fim de que absorva o excesso de óleo. Disponha os bolinhos num prato bonito e polvilhe-os com a mistura de açúcar e canela. Sirva em seguida. Se for para adultos, café acompanha muito bem. Para as crianças, chocolate quente é uma maravilha, caso o dia esteja frio.

INGREDIENTES:
2 ovos grandes
1 xícara (chá) de leite frio
1 colher (sopa) de requeijão cremoso
1 colher (sopa) de queijo ralado
2 colheres de sopa de açúcar
1 pitada de sal
1 xícara (chá) de farinha de trigo
1 xícara (chá) de amido de milho (Maizena)
1 colher (sobremesa) de fermento em pó
4 xícaras de óleo para fritura
½ xícara de açúcar com 1 colher de chá de canela em pó para polvilhar

porção: 4 pessoas
dificuldade: fácil
preço: econômico

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