A omelete da Agatha


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Qual é a Agatha do título? A Christie, rainha do romance policial. Nascida em 1890 em Torquay, na Inglaterra, manteve-se lúcida até os 84, comeu de tudo quanto há e escreveu ao todo 94 livros (14 a mais que Shakespeare) que honram a literatura inglesa. Suas obras foram traduzidas para 103 idiomas. Não há livraria no mundo que não tenha ao menos um exemplar de algum romance desta escritora que criou, entre vários tipos excêntricos, o detetive miúdo e de bigodinho, meio sisudo e um tanto presunçoso, Hercule Poirot. Personagem marcado também pelo traço da curiosidade, apareceu pela primeira vez em 1923, amealhou simpatias entre milhões de leitores e depois foi levado para palcos de teatro, telas de cinema e histórias em quadrinhos. Permanece vivo neste nosso século.

Hercule gosta muito de comer e costuma repetir, tão logo saboreia um escargot , que “é uma pena não poder ir à mesa mais de três vezes ao dia”. Adora pratos refinados, como perdizes, suflês, maigret de pato, foie gras e, belga de boa cepa, couve-de-bruxelas. Para beber, Armagnac de excelência, às vezes trocado por shandy, cerveja com soda limonada e gengibre. No meio da tarde, apenas suco de groselha ou xarope de framboesa.

Gourmand e gourmet, o inspetor Poirot sempre pergunta, nas investigações onde Agatha o coloca, o que a vítima comeu antes de embarcar desta para melhor. As informações que obtém de testemunhas são naturalmente muito detalhadas. Em Depois do Funeral, o morto, Richard Abernethie, havia saboreado uma mousse de chocolate feita com ovos fresquíssimos, e fora o leiteiro, amigo da cozinheira, quem lhe fornecera o creme de leite, ingrediente básico da receita. Se a comida não é causa da morte, ela pode, às vezes, denunciar o culpado. Em Os três ratos cegos e outras histórias, considerado o livro mais gastronômico de Agatha, há sopa indiana ao curry, bolo de carne, guisado de carneiro, torta de morangos silvestres, bolo de maçã, vários queijos e tutti quanti. Um restaurante, o Gallant Endeavor (instalado em Kings Road, Chelsea, charmoso bairro londrino), mantém no cardápio peru recheado com castanhas, peixe, minestrone, empadão de rim e torta de amoras, frutas que deixam os dentes escurecidos e serão pista para Poirot descobrir um assassino.

Outra glutona das páginas policiais é Miss Marple, que adora o chá das cinco e tudo o que o acompanha: rosquinhas com geleias, tortas com uvinhas, biscoitinhos de chocolate, bolachinhas de mel, scones… Pela manhã, elege como prato primeiro os ovos mexidos com bacon seguidos de pãezinhos com geleia de laranja. Seu lanche tem canapés de sardinha e tomate, sanduíches de presunto de Parma, torradas com bacon. Se é conservadora na Inglaterra, em viagens ao Exterior a velhota de instinto infalível aprecia as excentricidades: em Mistério no Caribe, devora uma grande taça de sorvete de maracujá, o fruit de la passion, porque acha muito bom descobrir prazeres insólitos.

Hercule Poirot e Miss Marple são, sob o ponto de vista gastronômico, alter egos de Agatha Christie, que a vida inteira amou a comida em todas as suas elaborações. Desde tenra idade era viciada em creme de leite, alimento ao qual atribuía efeito calmante. Depois da literatura, a culinária era sua paixão. Nas diferentes casas onde morou durante sua longa vida as cozinhas exibiam riqueza de detalhes, segundo conta autora do livro A cozinha das escritoras, Stefânia Barzini, que visitou uma delas, a da casa de Greenway. A escritora inglesa amava este lugar, singularizado por jardins e pomares misturados, capazes de produzir a impressão de espontaneidade selvagem. Muitas árvores continuam dando seus frutos, como no tempo em que a “Dama do Crime” ali morou. Tal como Ariadne Oliver, a personagem escritora de alguns de seus romances, Agatha Christie também vivia comendo maçãs deste lugar.

A autora mais popular no gênero a que se dedicou intensamente foi uma mulher apaixonada que saboreou com alegria cada aspecto da vida- os maridos, a literatura, as flores, os pomares, a compra e decoração das muitas casas em que morou. E as viagens: seu célebre Assassinato no Orient Express apareceu-lhe como sugestão em uma delas.

Visto a partir do conjunto da obra, parece que tudo foi se construindo ao longo de sua existência como a cenografia de uma vida que se fez bela pelo seu olhar sonhador. É ela mesma quem diz numa entrevista nos anos 60: “A criatividade pode se manifestar a qualquer momento: quando se borda, quando se cozinham pratos gostosos, quando se pinta, desenha, esculpe, compõe música, ou então quando se escrevem livros e histórias. A única diferença é que algumas coisas saem melhores que outras.” Nos 70, a uma jornalista eslovena que a presenteou numa entrevista com livro de receitas de seu país, agradeceu assim: “Vou experimentar todas. Adoro cozinhar! É como escrever: um ato criativo.”

Vem deste livro a receita de omelete que pode servir quatro pessoas. Escolha cogumelos frescos de sua preferência, refogue-os na manteiga e deixe que cozinhem por quatro minutos, mais ou menos. Quando ficarem tenros, junte o presunto picado em cubinhos, mexa por mais um minuto, desligue o fogo mas mantenha o preparo aquecido. Bata os ovos em uma tigela. Tempere com sal e pimenta. Em uma frigideira derreta um pouco da manteiga e despeje parte dos ovos, espalhando bem. Quando a mistura estiver coagulando, disponha parte do recheio e descole as beiradas, dobrando ao meio. Deslize sobre um prato e sirva. A quantidade de ingredientes rende quatro omeletes grandes.

INGREDIENTES
8 ovos
100 gramas de manteiga
100 gramas de presunto cozido cortado em tirinhas
100 gramas de cogumelos (shimeji ou shitake)
Sal e pimenta

porção: 4 pessoas
dificuldade: fácil
preço: econômico

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