Crescente de Nonna


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Se você que passa os olhos por aqui for mãe, tia, avó de crianças em idade escolar deve estar procurando receitas diferentes para elas, acertei? É sabido que gastam muita energia nas férias, época esfuziante da vida. E precisam repor tudo bem rápido. Nas padarias francanas encontramos grande variedade de pães, roscas, biscoitos. Entretanto, às vezes o paladar pede algo diferente, como uma quitanda doméstica. Palavra herdada do léxico africano, quitanda há muito tempo se solidificou no nosso falar francano, tão aproximado do mineiro. Abre o apetite só de ser pronunciada, porque levanta a cortina da curiosidade para descobrir sob que forma virá. Pode ser o pão de queijo simplesinho ou recheado com alguma coisa que o talento de quem prepara adivinha que combina. Podem ser biscoitos de polvilho azedo ou doce, sequinhos, lisinhos, crocantes ou retorcidos. Brevidades, sequilhos, rosquinhas. Bolos de fubá ou farinha, saídos de forma redonda de buraco. Ou de cenoura com cobertura de chocolate, cortados os triângulos na assadeira retangular. Bolinhos de chuva, dourados que só, passados em açúcar refinado, já pensou? Com este tempo assim pluvial a não dar tréguas, quitanda também pode ser uma daquelas iguarias que vão conosco pelo resto da vida e, não raro, acontece de nos salvar de certos estados de tristeza ou melancolia.

Acho que cada adulto guarda dentro de si seu bolinho de chuva para as horas de aperto quando o coração pede socorro ao estômago. O meu é um doce de pão que minha mãe fazia e nunca consegui reproduzir da mesma forma. Era para aproveitar pão amanhecido e levava ovos, leite, canela. Ela preparava uma calda grossinha, colocava os pedaços de pão duro, regava com leite, arrematava com dois ovos batidos. Nunca mais de dois. Muitas vezes me pego perguntando se ovos seriam tão caros naquela época ou se éramos demasiado pobres para gastar mais de dois numa receita… Sabe-se lá. Então, quando estou triste e é noite, vou à cozinha e tento fazer este doce, que é assim uma panaceia para minhas penumbras. Nunca fica como eu quereria, mas acaba dando conta do recado.

Então, saindo dessa conversa macambúzia, fui procurar uma receita fácil e econômica, porque a inflação pegou de jeito os alimentos e o desafio é saber fazer muito com pouco, exigência criativa neste tempo de economia periclitante. Encontrei num caderno de nonna uma preciosidade em página sépia que meu neto ainda não rabiscou. Estava lá: Crescente ripiene. Chamou minha atenção o fato de ser uma especialidade da Emília Romanha, terra de meu avô Affonso Machiavelli. Estive lá em companhia de meus filhos, noras e netos em 2012 e visitar a pequenina e gelada Loiano naquele outono foi simbólico, visceral, energético. Sob a óptica da logística infantil, o lugarejo fica quase no joelho da bota que é o mapa da Itália.

A Emília Romanha é conhecida como o centro gastronômico do país. Se fosse escolher uma palavra para defini-la, seria “sensorial”. Não foi à toa que há séculos apelidaram sua maior cidade, Bolonha, de “A Gorda”. Lugar onde foi criada a massa fresca, a região também é berço do vinagre balsâmico, do prosciutto di Parma, do parmesão reggiano, das tagliatelle, das lasagne, dos tortellini e das sfogli.

Para explicar os dois nomes: a partir de Bolonha, rumando para o norte, tudo Emília; descendo, tudo Romanha. Nesse lugar onde a culinária é reverenciada, a dona de casa ainda é chamada azdora no dialeto local. Apesar da mudança dos tempos, permanece como viga-mestra do lar, aquela ao redor de quem gravita a família e cujo lugar na cozinha tem importância enorme na memória afetiva dos filhos. Por isso pensei em reproduzir neste domingo a receita do crescente rippiene, porque o texto que a introduz no livro diz que é presença forte nas casas onde há crianças. Parece um pão de minuto e em geral é servido com mortadela. A deles é especial, feita com carnes delicadas e temperadas a partir de técnica cuidadosa. Os embutidos são outras reconhecidas riquezas gastronômicas da região e só para se ter uma ideia do rigor com que são produzidos, uma legislação em Parma obriga a alimentar os suínos com o soro usado na elaboração do queijo reggiano, o que torna a carne mais doce e macia. Você pode fazer o pãozinho e rechear com a nossa mortadela- temos boas marcas no mercado; ou com tomates, rúcula, queijo, linguiça frita e até chicória refogada. Dê asas à imaginação e surpreenda suas crianças- ou a criança que mora em você.

Meça a farinha e misture a ela o fermento e o sal. Abra uma cova e despeje o leite levemente aquecido com azeite. Mexa para agregar secos e molhados e junte os ovos batidos. Misture até que se forme uma bola. Coloque sobre superfície lisa e sove de leve. Corte seis pedaços, molde bolas, achate-as para formar discos de 1,5 cm de espessura. Coloque em assadeira untada e polvilhada com farinha e fure a superfície com garfo. Leve ao forno já aquecido a 180 graus por dez minutos. Vire os pãezinhos e fure a parte que estava voltada para baixo. Deixe mais dez minutos. Retire do forno, corte ao meio e recheie como desejar. Na foto temos crescente de mortadela, queijo branco e tomate caqui. Todos levam uma folhinha de rúcula para o desejável picante.

INGREDIENTES

300 gramas de farinha de trigo
100 ml de leite
2 ovos
2 colheres (sopa) de azeite de oliva
1 colher (sobremesa) de fermento em pó
1 colher (chá) de sal

porção: 4
dificuldade: fácil
preço: econômico

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