Entradinha com limão


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A origem das frutas cítricas confunde-se, no tempo, com a história do homem. A maior parte delas vem de regiões perdidas entre a Índia e o sudeste do Himalaia, onde se encontram ainda hoje, em estado silvestre, variedades como limeiras, cidreiras, limoeiros, toranjeiras, laranjeiras amargas e outros frutos ácidos aclimatados ou nativos.

Sua chegada no continente europeu está envolta em emaranhado de datas e fatos. Muitos botânicos defendem a tese de que laranjas e limões foram provavelmente trazidos para as margens do Mediterrâneo quando os romanos descobriram uma comunicação direta entre a Europa e as Índias Orientais, através do Mar Vermelho. Ou seja, por volta do primeiro século da Era Cristã. Outros acreditam que foram os árabes, que ocuparam a Península Ibérica por oito séculos, os responsáveis por disseminar mudas e incentivar cultivos nessa região.

Gregos antigos, que pareciam saber de tudo antes dos outros, acreditaram na “panacéia universal”, planta imaginária à qual se atribuía o poder de curar toda e qualquer doença. Eles a buscavam incansavelmente, e chegaram a crer que o fruto que mais se aproximava deste ideal seria o limão, já que o mesmo, descrito posteriormente por especialistas, tinha o poder de curar várias enfermidades. Talvez por isso Alexandre, o Grande não partisse para suas batalhas sem se certificar de que levava consigo cestas de limões.

Na América, os citrus chegariam no século XVI, pelas mãos dos europeus conquistadores. Porém, tanto na Europa como na América, foi bem recentemente, na segunda metade do século XIX, que tomaram impulso o cultivo e a comercialização do siciliano

Em geral, todos os tipos de limão t êm aspecto semelhante, embora mudem no tamanho e na textura da casca, que pode ser lisa ou enrugada. Quanto à cor, variam do verde-escuro ao amarelo-claro, exceto uma das espécies, que se assemelha a uma mexerica, é de cultivo fácil e se chama limão-cravo.

Na culinária o uso do limão é vasto há séculos. Tudo nele é aproveitável, da casca ao sumo. E são tantas as aplicações na cozinha que fica difícil enumerá-las. Com seu suco preparam-se refrescos, sorvetes, aperitivos; e no reino destes últimos, tornou-se marca registrada do Brasil a caipirinha. O limão também entra em tortas, pudins, cremes, mousses. Nos pratos salgados, é tão versátil que além de temperar carnes e saladas, ainda enriquece a composição de alguns risotos e pratos de massa. Compõe um excelente vinagrete.

Se os que visitam a Andaluzia se encantam com as laranjeiras dos pátios mouriscos onde florescem também roseiras e gerânios, quem passeia pela costa amalfitana ou transita pela Sicília fica surpreso com o número de limoeiros nas ruas; se for no verão, com galhos dobrados de limões … sicilianos. Ali estes arbustos estão por toda parte, alegrando os ambientes com a cor de suas folhas e frutos, perfumado o ar com aroma típico, inspirando artistas que os levam como motivo para seu artesanato ou cozinheiros que empregam os frutos em pratos doces e salgados. Nos bordados, nas louças, nos biscuits, nos tapetes, em sabonetes e xampus, lá estão os frutos, também ingredientes de uma bebida conhecida internacionalmente: o limoncello.

O limão siciliano, que dizem ser o “original”, o “verdadeiro”, entra hoje na pauta desta página porque vi uma receita publicada pela Patrícia Ferraz na sua coluna “Prato do Dia”, seção do caderno Paladar do Estadão. Achei interessante o emprego dado por ela ao fruto, usado como continente e não conteúdo, embora confira intenso sabor à preparação. Ela contou que tinha ido a uma mercearia chique do Morumbi, a Bufalat, comprar muçarela. Enquanto aguardava para ser atendida, ouviu o dono, Ronald Baggio, sugerir a outra cliente uma entrada fácil de preparar, de sabor delicioso e visual muito bonito. Patrícia ficou tão curiosa que resolveu tentar,o resultado foi tão do seu agrado ela levou para o seu jornal. Fiz o mesmo, inspirada pela forma como a moça contou a história e também por ter experimentado algo bem parecido em um pequeno restaurante próximo à igreja de Amalffi, há alguns anos. É bem fácil de fazer, fica pronta em poucos minutos e acho quase impossível não gostar. São apenas quatro ingredientes, mas devem ser de excelente qualidade: limão siciliano, muçarela, filezinhos de anchova, azeite de oliva extra-virgem.

O que pode parecer um pouquinho mais trabalhoso é retirar o miolo do limão. Patrícia disse ter usado uma colher firme. Por aí achei difícil. Usei uma faquinha para cortar as laterais e com uma colher pequena fui escavando até retirar todo o bagaço, e isso depois de ter cortado uma tampa na parte em que o limão tem um biquinho, ou seja, na oposta ao cabo. Também aparei esta parte do cabo, para que os limões se mantivessem firmes na superfície. Há que se ter um pouco de paciência, pois a casca não pode ser rompida. Coloque os limões numa assadeira, pois irão ao forno. (Conforme se vê no passo a passo, eu usei como suporte uma forma retangular de pão). Depois é colocar as bolinhas de queijo dentro. Se forem grandes, basta uma para preencher o côncavo. Se pequenas, duas. Ajeite com os dedos, para que fiquem bem firmes dentro da casca do limão. Abra a latinha de anchova, escorra o óleo, separe os filezinhos e disponha um sobre cada bola de queijo. Feito isso, leve ao forno (já aquecido) por dez minutos. A muçarela não vai derreter por inteiro, apenas amolecer. E este tempo de forno é suficiente para que as moléculas de perfume do limão sejam liberadas e inundem sua cozinha.. Retire do forno, regue com um fio de azeite, leve a pratos individuais e sirva, apreciando a cremosidade do queijo, a salinidade da anchova, a acidez e os aromas do siciliano. Se tiver um bom espumante, deleite-se.

INGREDIENTES

4 limões sicilianos
4 (ou 8) bolas de muçarela fresca
4 filés de anchova
Azeite a gosto

porção: 4
dificuldade: fácil

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