Um prato, por mais simples que seja, reúne história, cultura, estética e as circunstâncias que determinam sua criação individual ou coletiva; alguns se tornam icônicos (Foto: Dirceu Garcia/Comércio da Franca)

Um prato, por mais simples que seja, reúne história, cultura, estética e as circunstâncias que determinam sua criação individual ou coletiva; alguns se tornam icônicos (Foto: Dirceu Garcia/Comércio da Franca)

Toda receita tem sua história, traduz uma cultura, revela o senso estético de quem a criou, aponta para as circunstâncias do momento em que apareceu no embornal do matuto, na matula da criança, na mesa tosca ou na mais refinada; na cidade , no campo, à beira-mar. Assim a feijoada que caminhou impávida do Brasil Colônia aos nossos dias; a macarronada aclimatada aos trópicos pelos primeiros imigrantes italianos; os doces árabes que trazidos pelos mascates sírios tiveram alguns ingredientes substituídos e continuaram bons; a cuca alemã de frutas que incorporou elementos nativos. Assim tudo o que se come com genuíno gosto de brasilidade neste nosso país-continente. Do sarapatel que aproveita as vísceras dos animais ao baião-de-dois que liga arroz e feijão com pedacinhos de queijo. Do pé-de-moleque ao romeu- e -julieta, doces privilégios pátrios. Do tutu ao virado e ao tropeiro: quantas maravilhas culinárias se perpetram com feijão! E da moqueca ao vatapá, entre uma e outro a enormidade de itens de um cardápio afro- ameríndio.

Tudo tem história. E o cheesecake, sobremesa norte-americana que conquistou os brasileiros, também tem e é mais interessante do que parece. História moderna, diferente do que muitos podem imaginar. Apesar de várias culturas terem versão parecida (os italianos, a torta de ricota; os franceses, a musselina de frutas; os turcos, uma versão com seu estupendo iogurte ), é nos Estados Unidos que nasce o cheesecake como o conhecemos. É o que conta o chef pâtissier Lucas Corazza, que esteve na pátria do doce a fim de experimentar os melhores, pois pretende criar no Brasil uma rede só de lojas especializadas em cheesecakes.

Antes de tudo, nos diz ele, é necessário definir os parâmetros do que é considerado um verdadeiro cheesecake. A principal característica dele é um ingrediente básico, o cream cheese, que alguns conhecem como Philadelphia. Esse queijo cremoso nasceu em meados de 1880, e era fabricado pela empresa Empire Cheese & Co., comprada em 1909 pela Kraft Company. Por volta de 1928 o Reuben’s Restaurant, de Nova York, o utilizou na criação de uma sobremesa a que chamou cheesecake, torta de queijo, apondo-lhe o seguinte slogan: “Gather ye all here who have forsaken gloom” (Reúnam-se aqui todos que esqueceram a escuridão).Seja lá o que isso significasse, conferia ao doce uma aura de brilho, sedução e… mistério. Ainda mais que o dono não abria a receita para ninguém, até que outro nome famoso, o do concorrente Lindy’s, roubou-lhe o chef. Acontece que nem o novo contratado detinha todos os saberes necessários à produção da iguaria. Para impressionar, improvisou em alguma coisa que deu muito certo: a crosta de bolacha que permitia ao garçon fatiar mais facilmente a torta. Antes, sem um suporte firme, o doce se desmanchava fácil no prato. Com a crosta, que permitia apoiar uma fatia até em guardanapo, e saboreá-la de pé, satisfazia-se o senso pragmático americano: estava completada a receita tal como se tornou mundialmente conhecida. Virou um ícone da gastronomia nova-iorquina. E apesar de os grandes chefs o olharem com desdém, continua atraindo multidões nos lugares mais famosos da Big Apple, onde surgem releituras cada vez mais sofisticadas, como as da Pasticceria Rocco (com cobertura de morangos frescos); da Epicerie Bouloud (com um creme superleve); da Two Little Red Hens (com geleia de bluberries); da Junior’s, na Central Station (com creme mais denso); da Lady M (com uma indecifrável nuvem branca). E outros.

Há alguns dias, uma amiga querida sugeriu que eu fizesse um cheesecake para esta página. Escolhi uma receita que já havia experimentado e aproveitei para usar na cobertura uma geleia de morangos , da conhecida marca A Baronesa, que meu filho André e minha nora Débora me trouxeram de Campos do Jordão. A amiga disse que ela e o filho gostaram, o que me anima a publicá-la. Vamos lá.

Primeiro se faz a crosta, quebrando-se as bolachas e triturando-as no liquidificador. Faça em três vezes, assim a mistura fica mais fina e não causa danos à máquina. Coloque esta farinha numa tigela e misture a manteiga, que deve estar em temperatura ambiente. Coloque a farofa no fundo e lados de uma forma de aro removível (na foto que você vê no passo a passo usei uma de 24cm) e leve à geladeira por meia hora. Esse será o tempo suficiente para preparar o creme. Coloque no copo do liquidificador o cream cheese, o leite condensado, os ovos e o creme de leite. Bata por três minutos e despeje sobre a base de biscoitos. Leve ao forno médio (180º) por meia hora. Retire, deixe esfriar, cubra com geleia de sua preferência. Se não tiver à mão a geleia, prepare uma calda com duas xícaras (chá) de morangos fatiados, uma xícara (chá) de açúcar, 1 colher (chá) de corante vermelho e uma colher (café) de limão. Leve tudo ao fogo baixo até dissolver bem o açúcar. Empregue bem fria. O cheesecake deve ficar na geladeira por um mínimo de três horas, antes de ser servido.

Ingredientes

1 pacote de biscoitos tipo maisena (200 gramas)
3 colheres (sopa) de margarina
2 xícaras (chá) bem cheias de cream cheese
1 lata de leite condensado
1 lata de creme de leite
3 ovos

Calda
2 xícaras (chá) de morango em fatias
1 xícara (chá) de açúcar
1 colher (chá) de corante vermelho
1 colher (café) de suco de limão

porção: 6
dificuldade: média
preço: médio

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