
Sopa é comida de afetos, de conforto, de lembranças da infância’
“Nem vem de garfo, que o dia está pra sopa.” - Wilson Simonal (1938-2000)
Toda a horta pode aparecer num prato de ribollita, sopa toscana colorida e perfumada, que se toma bem quente com pedaços de pão, se possível acompanhada por reminiscências de infância, viagem, filme ou livro onde, havendo comida italiana, a sopa sempre dá as caras junto a um pedaço de pão. Aliás, sopa e pão exibem tal intimidade que parece meio estranho quando não estão reunidos. Afinal, nasceram juntos no nome. Suppa, em tempos quase perdidos na memória da civilização, era o pedaço de pão molhado em alguma coisa. Daí a origem da expressão “caiu a sopa no mel”, no sentido de algo bom, que ocorreu de encontro feliz, mas que a maioria das pessoas repete sem entender bem a significação primeira. Sopa no mel, o que será isso, de onde vem tal expressão? Explica-se para os que não sabem: sopa, suppa, pedaço de pão embebido em líquido, também em mel, o que é coisa bem apetecível.
Mas ainda melhor é uma sopa com pitadas de sal, no ponto justo, quando os termômetros caem e ansiamos por aquecer estômago e alma. Sopa é comida de afetos, de conforto, de envolvimento. Está de alguma maneira, acredito, vinculada aos nossos primeiros anos de vida, já que toda mãe, em algum momento, prepara uma sopa para seu filho que está adoentado, ou amuado, ou inapetente ou desconfortável ou tudo junto. Sopa aquece o corpo, e enriquecida com o carinho na oferta, aveluda a alma. Tem gente que me diz não gostar de sopa, mesmo no inverno. Fico pensando que são pessoas que ainda não experimentaram uma que corresponda ao seu paladar. São tantas as sopas, em todas as culturas, que é impossível não existir pelo menos uma que satisfaça ao mais exigente. Divididas em quatro grupos, minestras, caldos, consomés e cremes, de acordo com sua consistência e ingredientes, desvelam sua magia ao permitir variações segundo quem as prepara. Isso explica singularidades que autorizam frases do tipo: “Ah, nunca consegui fazer uma sopa igual à que minha avó fazia”. O motivo pode estar nos segredinhos representados, entre outros, por raminho de alecrim amarrado e depois retirado do caldo, deixando nele aquele je-ne-sais-quoi que nos acompanha pelo resto da vida.
A ribollita pertence à categoria das minestras, sopas que mesclam legumes e grãos. Nos mercados de Florença encontram-se saquinhos para seu preparo, comprados por entusiasmados turistas. São diversos ingredientes misturados: feijão branco, ervilhas secas e coloridas, sementes da região. Os imigrantes italianos, chegados em levas ao Brasil a partir de 1880, foram modificando a ribollita, o que não deixou a sopa menos saborosa. A que apresentamos aqui, com leve adaptação, faz parte do livro Tuscany, lançamento da editora Phaidon que deve estar chegando em nosso país. Para prepará-la, deixe os feijões de molho na véspera. Ao cozinhar, não jogue a água fora, reserve-a. Frite a panceta, refogue verduras e legumes (menos os tomates), junte metade dos feijões, o caldo onde foram cozidos e o caldo de carne previamente preparado. Deixe cozinhar até tudo ficar bem macio. Depois acrescente os pedaços de tomates, pelados e sem sementes, fervendo por mais dez minutos. Junte a outra metade dos feijões cozidos, espere borbulhar por mais quinze. Sirva em prato onde tenha colocado no fundo quadradinhos de pão italiano. Arremate com um fio de azeite.
Ah, por que “ribollita?” É porque esta palavra, particípio passado do verbo rebollir, significa “fervida de novo”. Segundo a tradição, fica ainda mais gostosa no dia seguinte, na sua versão “sobra”.
